Mais uma língua morta

Victor Toscano

I

Na tarde em que levou Clarinha para morrer, havia dezenas de pássaros na fiação dos postes.

Ludovico se lembrou do e-mail da Enel, notificando a suspensão de energia para poda de árvores das nove ao meio-dia. Os bichos buscavam nova moradia, assim como ele. No

caminho para o apartamento de Thaís, sentiu seu corpo pesar como se carregasse um caiaque. Parou pra tomar fôlego. Os galhos caíam sobre a rua Marco Aurélio, transformando o corpo duro das árvores em Vênus de Milo enrugadas.

II

Ludovico ensina inglês e francês para casais que querem iniciar uma nova vida no Canadá.

Às vezes italiano para os que estão em processo de obter cidadania europeia, como o Marcos e a Estela. Os alunos, em geral, beiram os quarenta; veem na mudança de país uma derradeira tentativa de evitar o divórcio, se agarram ao sonho de conjugar corretamente alguns verbos e assim voltar a se amar.

“Adquirir fluência numa segunda língua exige dedicação, mas não é impossível”, comunica aos novos. “São 150 reais a hora.”

Há um momento em que enxerga cumplicidade na maneira como o casal se ajuda na compreensão de um novo termo. Ludovico é um terapeuta de casais, nada menos que isso, mas sabe bem que, em lugar de chafurdar o inconsciente e lidar com picuinhas pelas quais um jamais perdoará o outro, ajuda-os a dominar um novo código, oferta-lhes a possibilidade de um terreno virgem onde aquele relacionamento pode ter destino venturoso. Ludovico lhes oferece a ilusão de que todo o fracasso até ali se dera porque os amantes falavam a língua

errada. Então é óbvio que o ódio mútuo às famílias agregadas, as traições e humilhações públicas e tudo que é de ruim, well, well, aconteceria a pessoas prisioneiras de um idioma mefistofélico, que lhes rende clandestinos no país da intimidade.

Marido e mulher clicam de repente, um corrige a pronúncia do outro com carinho.

Love is in the air.

III

Quando Ludovico chegou no apartamento da ex-mulher, Thaís estava com dor de barriga. Passou exatos vinte e três minutos no banheiro. Saiu de lá pálida, suando. Tinha engordado um bocado nos dois meses em que estavam separados.

“Não precisamos levar Clara hoje, não tem problema”, ele falou.

Sem obter resposta, pensou em dizer a mesma coisa em italiano. Thaís se cobriu até a cabeça, quatro dedos do pé esquerdo pra fora. Seu corpo era como uma extensão dobrável do sofá. Segundos depois, puxou Clarinha pelo dorso e a engolfou sob a manta.

“Já vou indo, então?”, ele perguntou. Ela deu um grunhido.

O apartamento tinha ração de gato entranhada nos tacos, uma fila comportada de sacos de lixo na porta esperando ser retirada e, na pia, a louça acumulada, tanta, que era de se imaginar que Thaís vinha comprando pratos novos pela internet à medida em que os usava.

Ludovico dobrou as mangas da camisa e começou a lavar. Numa das canecas, um gatinho enrolado num pano, de olhos estatelados e brilhantes, dizia mommy.

Ter um filho possui a mesma função prática de se aprender um novo idioma, com a vantagem de ser muito, muito mais difícil — além de transformar a separação do casal em algo repulsivo de um instante pro outro. Não é de se espantar que interrompam

imediatamente as aulas após darem as boas novas, alegando que agora, como você bem sabe, é importante fazer uma economia, pensar no futuro da família e essa coisa toda. É o destino de todos os seus alunos: se não vão embora do Brasil e se separam no estrangeiro, têm um bebê e se separam por aqui mesmo, mais dia menos dia.

IV

Encontrou Marcos no Franz Café. Antes de se sentar deu-lhe os parabéns. Estamos muito, muito felizes, disse o aluno. Sim, posso imaginar. Marcos desculpou-se por não poder

continuar as aulas; pôs adoçante no café em vez de açúcar e contou que visitaria com a mulher alguns parentes na Calábria no fim do ano, mas que os planos de imigração ficariam em stand by. Conversaram um tantinho em italiano sobre seu assunto preferido: a máfia.

Marcos falou, enquanto se despedia:

“Ter um filho é mais ou menos como aprender uma língua nova, não acha, professor?”

V

Um email de Thaís entitulado “Filhos” apareceu na caixa de entrada. “A gente pode ter um filho, se você topar. Lembra que a gente falava? Num precisa ficar junto não. Mas lembra que a gente pensou que podia ser uma boa ideia? Porque eu num quero mais nada não sabe. Tô muito cansada. Eu não tenho mais força pra sair por aí conhecendo gente. Juro que tô bem, não é maluquice nem nada, não precisa pensar que tô deprimida. É só uma coisa que faz sentido na minha cabeça. E se fizer na sua também vou ficar muito feliz.

VI

Vida – ΖΩΗ

Casa – Σπίτι

Começo – αρχή

Gato – Γάτα

Vai dar certo – θα είναι εντάξει

VII

Lembrou da última aula que teve com Marcos e Estela. Algo reluziu em seus olhos. Percebeu o pingente no pescoço de Estela. É jóia egípcia, ela disse. Ela sempre andava cheia de

acessórios, outro dia usava brincos que lhe lembravam um monolito.

Sim, Marcos, ter um filho é mais ou menos como aprender uma língua nova. Há ainda mais vantagens. O bebê será o seu novo idioma. Vocês não precisam ir à Itália para salvar o

casamento, o bambino que está chegando vai se encarregar de transformar seu lar na nova Roma. Você vai ganhar um pequeno imperador vociferando decretos de dentro do berço; ele lhe fará ajoelhar e usar togas, vai virar sua vida de ponta cabeça até que você implore para ser jogado aos leões. Todas as placas à sua volta terão se convertido em latim, os números no seu laptop em algarismos romanos, e você virá a mim, chorando e batendo o pé, pedir aulas de português, você vai dizer eu não sei mais o que é dia nem o que é noite, eu não sei mais se eu existia antes do César explodir a vagina da minha mulher. Portanto, minha resposta é sim, Marcos: ter um filho é mais ou menos como aprender uma língua nova.

VIII

Pedra egípcia, monolito, Estela. Claro! Despediu-se do Marcos, desejou saúde ao bebê. Foi então que correu à casa de Thaís para contar sobre a Pedra de Roseta, da transliteração e de como tudo entre eles estava prestes a ficar bem outra vez.

Eu descobri o que não tava dando certo, ele diria. Ele pegaria Clarinha no colo e

explicaria com muita calma a história daquela pedra primitiva. Bateu à porta ensaiando as palavras.

Thaís, o problema não é falar línguas distintas esperando se entender, o problema é que, eu e você, utilizamos alfabetos diferentes. Nós precisamos de uma tábua em cada mão: você com seus hieróglifos; eu com meu grego. Só assim você vai entender, Thaís, que tudo vai dar certo. Não é porque hoje você não consegue mover seu corpo da cama que vai ser desse jeito pra sempre. Um dia você vai ver o mesmo feixe de sol que há mais de três anos ilumina as estantes e, nesse dia, vai achar a luz diferente, mais dourada, como pássaros dourados deslizando rápido nas prateleiras, como se fosse coisa viva, e você vai querer abrir um pouco mais as cortinas. Como eu nunca tinha reparado nisso?, você vai dizer mergulhada

num apartamento de ouro. Pois ainda neste dia vai ter vontade de comer alguma coisa diferente e vai achar a moça do restaurante muito, mas muito simpática mesmo, e pensar quem sabe tem pessoas bacanas nessa vida; então, no fim da noite, você vai chorar como de costume, mas o choro não faz mais doer as paredes da garganta do mesmo jeito; não; vai melhorar e vai passar, e a sua dor, que nem o Demótico, vai se tornar somente mais uma língua morta, daquelas que a gente tem que coçar a cabeça tentando lembrar como se

escrevia.

IX

Ludovico entrou no apartamento e não disse nada do que planejou; foi Thaís quem falou. “Vamos?”

Os dois ofereceram um último carinho na testa velha e carcomida de Clarinha. O frio da clínica veterinária fazia sentido. Deram-se as mãos, uma trégua diplomática, deram-se um beijo de morfina na testa. No fundo, invejavam o destino de sua companheira peluda de tantos anos.

Morto, o corpo de Clarinha parecia mais gordo e artificial. A expressão do animal se congelara, era a mesma cara que fazia quando tentava cobrir de areia o cocô.

“Não entendi seu email”, disse Thaís.

“Ah, era besteira. Pesquisei no Google umas palavras em grego. Era uma brincadeira.

Eu pensei: vai que a gente se entendia numa língua nova.” “Hum. Ah, e sobre o email que eu te mandei…”

“Tudo bem.”

“Eu não quero filhos, não, tava emotiva.” “Eu sei.”

“Então tá, já vou indo.”

Thaís entrou no Uber. Ludovico voltou caminhando pra sua nova casa. As árvores sem braços deixavam passar luz demais na Marco Aurélio. Procurou os pássaros na fiação, mas já tinham ido embora. Entrou na sua nova casa. Dando risada, pensou que se sua vida fosse um filme romântico a voz do narrador diria uma frase sábia do imperador Aurélio.

Fechou o portão e ficou satisfeito que sua vida não era filme de coisa nenhuma e não precisava seguir lógica de coisa nenhuma, e muito menos de aprendizado.

X

A experiência é um troféu composto por todas as armas que nos feriram. — Marco Aurélio


Victor Toscano é escritor e músico. Nasceu no Recife, onde se formou em jornalismo. Hoje mora em São Paulo. Em 2018, publicou sua primeira coletânea de contos O último minuto custa a chegar, mas é maravilhoso.

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