MAURÍCIO SIMIONATO nasceu em Assis (SP) em janeiro de 1973 e mora em Campinas (SP). É poeta, jornalista, colecionador de vinis e pai da Clarice e do Vinicius. Lançou os livros de poesias “Impermanência” (2012, selecionado pela Secretaria de Cultura de Campinas), “Sobre Auroras e Crepúsculos” (2017, Multifoco), lançado na Bienal de Literatura do Rio/2017, e “O AradO de OdarA” (2021, Patuá). Teve poemas publicados em diversas revistas especializadas em literatura e em mais de dez antologias poéticas.

Negra

Fátima Pinheiro

o que acontece quando temos que tomar o incenso de anis e respirar
com as pupilas aguadas? aquilo que tu olhas não te vê,
só o pulmão pressente a luz que respiras. afogada, so what?,
no quarto, pelo jazz de Miles Davis, escuto, com
uma flor no fundo da cabeça, a matéria radiosa de sua agonia.
uma flor no fundo da cabeça a celebrar a altura do sax.
uma flor no fundo da cabeça a engolir a água profunda.
tanta sombra a recalcitrar cool
a
brisa deitada pela noite
ininterrupta
negra
negra
negra


Fátima Pinheiro é gaúcha e vive no Rio de Janeiro. É autora do livro “sim, é” (Blanche/PR; 2020). Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, coordena na EBP-Seção/Rio o Seminário “Sinthoma e Corpo: variações e invenções”. É doutora pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Recebeu o Prêmio Universidade Estácio de Sá – UNIVERSIDARTE/ 2001. De 2012 a 2019, foi responsável pela coluna In Situ, de ensaios e entrevistas, no blog da Subversos Editora/RJ. Escreveu artigos, ensaios e entrevistas em revistas no Brasil e exterior. Tem poemas publicados na Zunái (2020), Mallarmagens (2019) e Macabéa Edições (2020). Seu texto, “Flor d’água”, está na coletânea da revista Feminino manifesto, da Nau editora (no prelo).

Tanta saudade

Sandra Modesto

Sempre que me lembro de Ana ela está bem ali. Esticada no sofá. Sumida ao esfregar

das coxas grossas impostas no corpo feito tela moderna.

Ana era assim. Aparecia às vezes. Debruçada em devaneios.

O meu amor por Ana. Os abraços. Passeios pelas praças. Gente no mesmo espaço.

Cheiro de natureza. Agora tá tudo forte.

Há histórias meio roucas ainda. Há histórias inesquecíveis. Pessoas diferentes.

Pela varanda da casa, eu observo os vizinhos. Bato palmas, reaprendi a sorrir.

Chamo Ana. Reencontros tão sonhados.

Ruas enlouquecidas com pessoas se olhando de perto.

Juventude pelos bares. Notícias novas. Sem demasia.

O caminhar é a pé.

Eu ainda estou aqui. Ana também.

Dançamos. Gritamos felicidade.

Pele, pernas, risos. E a gente pode gozar.


Sandra Modesto tem 60 anos. Nasceu e mora em Ituiutaba, MG. É graduada em Letras, pós-graduada em Educação e professora aposentada. É autora dos livros “Tudo em mim é prosa e rima” (Editora Autografia) e “Acenda a Luz” (Editora Kazuá). Tem textos incluídos em três antologias e publicações em revistas digitais e impressa. É membro do coletivo Mulherio das Letras, cronista no site Crônica do Dia e escritora no site Corvo Literário. Considera-se uma aprendiz da vida.

Retroescavadeira modelo 2021

André Siqueira

a retroescavadeira barulha os ouvidos
voltados para a obra da prefeitura
com seus homens equipados
de mãos jovens e meia-idade
librando tédio e má catadura
no tripé de máquina e membros
caçamba pernas estabilizadoras
canivete suíço braço lança pá
cabine carregada de nervos
lá um confinado cava
morosamente a rua sobre pobres
terras poeira pedras um feldspato
na movimentação esquelética
dos funcionários a serviço

a retroescavadeira barulha os ouvidos
mas sei por que não lembramos
da tubulação ou demolição próprias
da retroescavadeira a terraplanar
a vala e seu calcário construídos
à britadeira
porque cavando e mais ainda
escavando pensamos em covas
sob o entulho da morte que trabalha
sem precisar de licença.


André Siqueira mora em Jacareí, interior de São Paulo. Cursou a faculdade de Letras pela UNIP, porém sem concluir. Publicou em 2020 seu primeiro livro de poesia por uma editora, intitulado “As Manhãs Fechadas” (Gataria). Atualmente, é colaborador da revista de literatura Pixé.

Ela vive! Edição 4 da Revista Torquato

A edicão de outubro a dezembro de 2020 da Revista Torquato está disponível online para leitura. A edição foi contemplada pelo edital Conexões Culturais 2020 da Prefeitura de Manaus. O belíssimo trabalho de planejamento gráfico ficou por conta de Kato (@aanakato).

Essa edição também marca o aniversário de um ano da Torquato, feita de forma 100% voluntária por seus criadores em Manaus, Amazonas. O alcance e aceitação da revista ainda é motivo de espanto para nós, mas o espaço dado aos escritores e artistas visuais amazonenses e a oportunidade de ver esses trabalhos tratados com o mesmo cuidado e atenção dados aos artistas dos demais estados é o que nos deixa mais felizes nesse processo.

Todo trimestre a Torquato nos é motivo de briga e alegrias: como garantir que ela nunca seja sudestina? Que nunca deixe de ser nortista? Que sempre seja cada vez mais ofensiva às estruturas de poder dominantes numa sociedade injusta? E como equilibrar isso tudo no cotidiano dos trabalhadores simples que a produzem?

Responder essas perguntas durante a pandemia foi a prova mais difícil que essa publicação poderia ter passado. O ânimo, saúde mental e por vezes até a física duvidaram de sua continuidade. Afinal, qual o sentido de produzir e circular arte quando tantos sequer sobrevivem? Qual o impacto que a Torquato pode ter perante uma realidade avassaladora? A quem serve a sua circulação? E é por isso que o lápis de Maura Lopes Cançado surgiu na hoje tradicional citação ao fim da revista.

Talvez o avanço do obscurantismo, mesmo num cenário em que a reflexão e o bom senso deveriam falar mais alto, justifiquem algumas respostas das questões acima. E deixamos ao leitor o desafio de elaborá-las.

Daniel Amorim e Susy Freitas, dezembro de 2020.

Edição 3 da Revista Torquato

A Edição 3 da Revista Torquato (jul.set/2020) já está disponível ao público.

Nela constam prosas de: Alex Xavier, Daniel Amorim, Felipe Ribeiro Pires, Francisco Ricardo, Lucas Pistilli e Paloma Palacio.

Na seção de poesia, os selecionados foram: Adriane Figueira, Ana Luiza Rigueto, Angel Cabeza, Anna Apolinário, Anna Violeta Durão, Caio Vinicius de Lima, Diogo Mizael, Edinaldo Costa, Eduarda Vaz, Eduardo Reis, Elizza Barreto, Felipe Oliveira, Germano Xavier, Joatim, Lubi Prates, Paulo Monteiro e Ramon Carlos.

A tradução de Felipe Pinheiro Barreto  para um poema de Voltairine de Clayre também é contemplada nessa edição, assim como as ilustrações de Carol Veiga e Francisco Ricardo.

CLIQUE AQUI E LEIA A EDIÇÃO 3 DA REVISTA TORQUATO

A chamada de trabalhos para a próxima edição vai de 1 a 20 de agosto de 2020. Para mais detalhes, consulte a revista e nossas Diretrizes Gerais.

Boa leitura!

Edição 2 da Revista Torquato

A Edição 2 da Revista Torquato (abr.jun/2020) já está disponível ao público. Nela, constam prosas de: Alerto Bia, Lucas Tolotti, Otávio Ehrenberger, Ozeias Alvez e Susy Freitas.

Na seção de poesia, os selecionados foram: Adriano de Almeida, Arcângelo Ferreira, Débora Mitrano, Felipe Leal, Flávio Morgado, Jairo Macedo, Jeanine Will, João Henrique Balbinot, Julia Bac, Larissa Monteiro, Lorena Grisi e Zuza.

A tradução de Henrique Komatsu  para um ensaio de April Ayers Lawson também é contemplada nessa edição, assim como as fotografias de Paul Castro e Jeanine Will e o trabalho em técnica mista de Lisa Mangussi.

CLIQUE AQUI E LEIA A EDIÇÃO 2 DA REVISTA TORQUATO

A chamada de trabalhos para a próxima edição vai de 8 a 31 de maio de 2020. Para mais detalhes, consulte a revista e nossas Diretrizes Gerais.

Boa leitura!

Longa vida à Torquato!

Bem-vindos ao site da Revista Torquato, publicação trimestral de literatura luso-brasileira. A partir de outubro, traremos textos em prosa e poesia, além de traduções.

Para a nossa Edição Zero (out/dez.2019), os autores Nathalie Lourenço, Thiago Roney , Bruno Oliveira e Daniel Amorim contribuem na seção de prosa. Em poesia, temos os autores Priscila Lira , Márcia Kambeba, Paulo Monteiro, P. F. Filipini, Carlos Orfeu e Susy Freitas. O lançamento online será em outubro.

A partir da próxima edição (jan/mar.2020), aceitaremos envio de textos de quaisquer colaboradores, desde que sigam das DIRETRIZES da revista.

Boa leitura a todos!