Belle Époque

Te digo, Pajé, que esta cidade será o maior museu da peste do século XXI. Um depósito colossal de lembranças em cada zona, bairro, casa: imagine o potencial turístico e econômico dessa empreitada! Nossa Belle Époque de leitos de UTI e valas comuns!


Vamos promover pacotes turísticos inspirados nas vidas (ou mortes) de gente simples e trabalhadora. “Nesta casa morreu dona Francisca, uma guerreira que criou seis filhos, oito netos, e venceu uma longa batalha contra o câncer de mama para sucumbir ao vírus”. Que tal? Claro, não precisa reproduzir literalmente os fatos, basta cativar a atenção do turista, incluir algum detalhe pitoresco no relato para fazer valer o ingresso. Os objetos que pertenceram aos falecidos também serão exibidos junto com as fotografias do ente querido e sua família, que tal?


Sente a inspiração: “aqui faleceu o dr. Demóstenes, um dos mais célebres representantes da magistratura local e defensor dos direitos humanos. Sua filha única enlouqueceu após a morte e, certa noite, saiu de casa em trajes íntimos profetizando a chegada dos exércitos do Senhor. Ela morreu jovem e se tornou a padroeira das crianças órfãs e das solteironas. Eis um exemplo de que a doença não escolhia cor, credo ou status social”. Um relato comovente com pinceladas de esoterismo, a fórmula do sucesso, que tal?


Te digo, Pajé: seremos a vanguarda do turismo de luto. Ao final dos passeios, vamos distribuir chaveiros em formato de cilindro de oxigênio e balas com sabor de benfezina, que tal? Certo, Pajé, tô ligado que o maldito remédio não tem gosto de porra nenhuma, é apenas uma jogada para estimular a memória afetiva dos clientes. Talvez você pense que estou indo longe demais, que devo respeito à dor e ao luto das famílias…mas olha que curioso: na Alemanha os turistas são incentivados a visitar os locais onde exterminaram os judeuzinhos. Até mesmo os carecas têm liberdade para posar na frente dos campos de concentração com os braços estendidos, Viva a vitória!, A guerra é a higiene do mundo!, coisa e tal. País desenvolvido é outro exemplo.


E, além disso, eu mesmo quase fui vítima daquele micróbio maldito. Passei duas semanas com a porra de uma caixa de plástico enfiada na cabeça, diziam que era a tecnologia mais avançada para o tratamento, agora imagina a pior…puta que pariu, só podia ser piada! Eu ali, deitado sem conseguir falar, naquela sala abarrotada de gente desconhecida: pretos, pobres, amarelos, putas, ricos, evangélicos, macumbeiros e o caralho a quatro…médicos e enfermeiras correndo em todas as direções, sem pausa nem descanso, com aquela expressão de tragédia iminente no rosto e uma má notícia na ponta da língua. Teu pai não resistiu. Tua sogra teve de ser entubada. Mamãe está em coma. Eu ouvia essas notícias e não acreditava na dimensão daquela catástrofe, não conseguia reagir: é muita desgraça para uma pessoa aguentar. Imaginei que Jesus testava a minha fé, a minha resiliência, o mesmo desafio enfrentado pelos personagens das Escrituras. Na minha cabeça, aqueles moribundos não eram pessoas de carne e osso, mas anjos. Não tô falando daquelas entidades enviadas para te proteger, e sim te desafiar. Tipo uma versão bondosa da figura de Satanás na montanha, entende?


Te digo uma coisa, Pajé: foi uma experiência tenebrosa, mas aceita o convite quem quiser. Uma dose de polêmica é fundamental para a garantir a sobrevivência dos negócios. Os maiores líderes nos ensinaram isso: Hitler, Trump, aquele ditador malucão lá do Paraguai que estuprava e matava crianças, celebrado como um herói pelo nosso presidente, o cara permaneceu décadas no poder, veja como funciona! Enfim, só para citar alguns casos. Meu avô Benedito dizia que a vergonha é o prelúdio do fracasso. Isto é um fato. Vamos em frente.


Talvez você já saiba, Pajé, mas assim que o povo perceber que os vizinhos, amigos e familiares estão faturando alto com o negócio, vão desistir de manter a pose de gente civilizada. Tô contando alguma novidade? Você deve saber melhor do que eu. A história do teu povo comprova o que tô falando. Simples assim.


Te digo, Pajé: vamos salvar nossas famílias da penúria. E quem sabe faturar um cargo de deputado ou vereador, o que vier primeiro é lucro. Nosso eleitorado vai apontar para a gente na televisão, na rua, no supermercado, e dizer: aquela dupla foi acusada de oportunismo, de faturar alto com a tragédia de nosso povo, mas o fato é que a verdade jamais será esquecida. E seremos os guardiões dessa história. Homens que colocaram a própria cabeça a prêmio e não fugiram da luta. Seremos o exemplo de heroísmo das futuras gerações. E que falta fazem os heróis neste país!


Então, Pajé, gostaria de te apresentar uma prévia do roteiro de visitas. O cemitério improvisado que ficou famoso por causa daquelas fotos publicadas nos jornais dos states, onde fica mesmo? Claro, longe pra caralho, mas a intenção é tirar o foco das atrações que todo mundo já conhece, o povo está cansado de ver teatro, comer camarão boiando em água suja e dançar boi-bumbá, essas leseiras todas. Vamos injetar um pouco de realismo nessas vidas sem graça. Aí a gente divide os lucros dos ingressos com os sobreviventes, que tal? Uma proposta honesta, hein? Claro, não podemos deixar nossa maravilhosa culinária regional de lado. Vamos oferecer as comidas favoritas de cada falecido, preparadas e servidas durante as visitas: peixe assado à moda de Fulano. Carne guisada com tempero da dona Sicrana. Basta usar a criatividade.


Então, Pajé, o que você me diz? As cartas estão na mesa. Te expliquei o plano em detalhes, cabe a você a decisão de fechar essa parceria. Se tiver alguma dúvida, basta consultar o contrato que te apresentei. Sei, no entanto, que você é um homem de poucas palavras e muita atitude. Pode assinar logo, se preferir, e vamos comemorar com uns goles de cachaça envelhecida, do jeito que você gosta. É por minha conta.

DANIEL AMORIM nasceu em Manaus, Amazonas, em 1983. Escritor e jornalista, edita a revista Torquato. Em 2020 publicou seu primeiro livro de narrativas breves, Zona de sombra, pela editora Penalux. O livro venceu o Prêmio Literário Cidade de Manaus em 2018 na categoria Contos.

Aldeia do silêncio

Não se ouvia nenhuma voz humana, nem murmúrios ou gemidos, nem mesmo qualquer som arquejante. O ritual era, do início ao fim, uma embriaguez emudecida, salientando-se apenas o som vão dos pés se arrastando pelo chão. Alguns homens se concentravam no meio, outros de cócoras, ainda outros se debruçavam por sobre palhas secas estendidas pelo espaço irregular. Algo estava acontecendo, mas impossível discernir o quê; em desacordo, se mexiam com extravagância para os lados, em redor de si mesmos, como a procurar um centro perdido. Suas mãos iam ao céu, obedecendo a instintos inebriados, e calmamente voltavam à altura dos quadris, para, logo depois, irromper abruptamente para os lados, e depois para o céu. Esses gestos iniciais pareciam bastante convidativos para os demais, que iam se aglomerando, pouco a pouco, todo início de manhã.

Durante as vinte e quatro horas do dia, com impreciso tempo para as refeições e, mais impreciso ainda para o sono, os habitantes daquela aldeia encenavam com determinado ascetismo esse ritual exaustivo. Os habitantes se sucediam esmorecidos e desapareciam dentro das ocas, enquanto outros, mais jovens, mais fortes, com acentuada porção de homens, davam continuidade ao ritual. 

Começavam sonolentos e lentamente mexiam os quadris alongando languidamente seus corpos, depois via-se que seus olhos reviravam, suas pupilas amiudavam, como a enxergar algo fora dali. Olhavam o céu primitivamente, adorando-o em sua vastidão azul, ausente ainda de sol. No decorrer da manhã, o contingente aumentava.  Não se sabia bem se obedeciam a uma determinação comum, de não se aglomerarem de uma vez só, e mesmo com o fato de gradativamente formarem um grande laço humano, introspectivo e silencioso, tudo ali parecia de uma absoluta normalidade. Podia-se ver, em seus rostos possuídos, um prazer jubiloso, como se o clímax do ritual fosse só a participação. A vida comunitária realizava-se ali e, mesmo que alguns, mostrando uma inesperada insatisfação, apontassem para a mata, arquitetando uma impossível fuga, era natural vê-los acorrentados a grossos toras de madeira, com os olhos lesionados e cegos, carregando-as nas costas esfoladas, participando do ritual e socializando-se, por meio de mudos sorrisos, com os demais.   

Depois de mais de quatro horas, os seus gestos eram de uma imprevisibilidade habitual, como provenientes de uma certeza insana; e enquanto dois subiam em cima de altas árvores, inquietos como macacos, em baixo, cada um imerso em si, decaía numa agitação mórbida, um pequeno surto como de uma criança que acaba de gorfar; estático êxtase de quem abraça uma lucidez de que nada pode servir. 

Ao redor da aldeia os bananais se espalhavam garantindo uma fonte segura de alimento. Bambuzais, arrodeados por grossos ciprestes, juntamente com pinheiros altos e seculares, além de contribuírem para um efetivo ostracismo da aldeia, eram, vez ou outra, pousadas de pássaros de canto sereno e suave que eram apressadamente espantados pelos habitantes da aldeia que os achavam um incômodo insuportável para a manutenção do silêncio. Não só toda prudência, mas toda lei parecia advir da necessidade de extinguir qualquer som ou ruído de qualquer proveniência. Nas longas noites em claro, os grilos e rãs, corujas e cigarras, eram objetos de infortúnio, e se não podiam os espantarem, seus humores eram dolorosamente afetados por tais sons. Isso alterava o ritmo do ritual, que era pausado forçosamente para que todos se concentrassem em espantar os bichos.

No meio da tarde, entre monótonas cirandas, via-se o preparo condicionado de uma bebida alucinógena, tomada a goles selvagens, que os faziam se afastarem uns dos outros, carregando pequenos instrumentos cortantes apontados para o chão com extrema violência. Era também natural vê-los arranhando o vento, e nos seus espetaculares golpes desferidos ao nada, percebia-se suas prodigiosas habilidades de caça. Aliás, a caça, atividade realizada diariamente, mas com a ressalva de que os que se dirigissem a ela não demorassem mais que uma hora para conseguir algo para comer e retornassem imediatamente ao ritual. Quando assim o faziam eram até festejados com silentes congratulações, mas se demorassem, eram com urgência castigados e segregados dos demais por indeterminados períodos de tempo.  

O dia avançava, as horas se sucediam. A tarde era clara e límpida, e parecia vestir toda aldeia como a delicadeza com que uma mãe veste a filha pequena e sonolenta, tornando-a sua languidez um expoente de ternura cativante. No ritual, os seus gestos excediam de uma beleza supérflua, e os seus movimentos pareciam saídos da maquinaria imaginativa de um deus sem rédeas inventivas, despirocado. Procuravam lacunas onde só havia vácuo e, descascando o espaço oco ao seu redor, intentavam arrancar qualquer máscara que a realidade exterior sustentava. Então, se perdiam, ou mesmo, se encontravam, mas em confusão, e não admitindo retorno, porque incansáveis em sua órbita sem chegada a chegar, permaneciam intactos ante ledos erros, ingênuos e espontâneos, em sua procura. O certo é que sobre o efeito alucinógeno tinham mais força psíquica, e onde habitualmente os limites se fazem patentes, se desequilibravam como se fossem palhaços equilibristas sobre uma corda-bamba alçada sobre um precipício que talvez nem seja tão amedrontador assim se deixar cair.

O silêncio era denso, mas era o único elo entre os habitantes da aldeia. Mesmo os bebês já nasciam mudos e, de tal forma, saudavam a luz emudecidos e com uma inocente estranheza em suas faces amassadas.  Não eram assim, inatos, sem a capacidade humana da fala, mas como nunca ouviram voz humana, se abstiveram de tal capacidade, e quando um deles, como que numa involuntária ação do desenvolvimento humano, ensaiava sílabas casuais, tinha a oralidade tolhida. Era como um acordo societal, de graves consequências para quem o transgredisse.

Mais adiante, quando o pôr-do-sol iniciava, algo mais acontecia, quer dizer,  não poderia se dizer que nada, desde então, fosse sequer gratuito ou se somasse a um inventário sem sentido. A poeira subia, semi-encobrindo a todos, de dentro das ocas surgiam inumeráveis os habitantes da aldeia.  Arrastando-se pelo chão, alguns deles sofriam de deliberados espasmos, como se conhecessem tanto a si mesmos que os fosse possível forjar estados de espíritos tresloucados, febris de gozo através da doença como superátiv mental. O espetáculo tomava proporções cada vez maiores.  A diversidade de atos era equivalente à individualidade de cada habitante. Uns, entre bananeiras, camuflavam-se enrolando  em seu corpo as largas folhas bananais, como se fosse uma toalha, e através desse improvisado penacho, misturavam-se aos outros, já com inabsorvíveis traços disformes. Havia alguns outros que, num ridículo comportamento, atrapalhavam os demais, que também se deixavam atrapalhar. Esses inúteis baderneiros realizavam toda sorte de loucuras surdas, desde mímicas violentamente escatológicas a choques contínuos cabeça contra cabeça, sem perderem, no entanto, a intensidade, mas cada vez mais próximos da inconsciência.  Poderia se dizer, ainda mais, que pelo conjunto formavam uma grande unidade anômala, alicerçada por pormenores incompreensíveis, constituintes de uma cosmogonia muito além dos cinco sentidos.

Os díspares contrastes, os vários contornos voláteis dos seus rostos, as multiformes simbologias intensificadas pelo tirânico silêncio, tudo se encaminhava ali, mesmo sem o parecer, para uma sumária e prometida redenção. Os mais exaltados, desconsiderando todo limite de autopreservação, tatuavam a carne de seus corpos, com instrumentos rudimentares e afiados, e mesmo banhados em sangue tinham toda disposição para permanecer fiéis ao ritual. Havia os encobertos, que cavavam com desespero o chão, até o limite em que seus troncos pudessem estar totalmente cobertos, e ali, se enterravam, com fausta satisfação.  Não passavam de dois ou três, os contemplativos. Esses permaneciam, horas e horas, numa hermética estagnação, talhando qualquer forma para o que só eles poderiam enxergar. Era hábito sempre haver alguns outros, rodeando-os  com certa curiosidade, mas logo se cansavam, pois os contemplativos tinham um profundo controle  dos seus movimentos, e eram determinados em sua paralisia, e então, quando acontecia, esses cansados emitiam gracejos semelhantes a sôfregos grunhidos. Havia ainda os elétricos, que durante todo ritual apenas desperdiçavam suas forças até o esmorecimento final, e isso quase nunca acontecia, pois possuíam extraordinária agitação.  Uns passavam para lá e para cá, ininterruptamente, e se precipitavam à volta, num retorno inerte à posição inicial. Quando se amontoavam, precisamente formavam, com bastante plástica, um amontoado fantástico, desumanizando qualquer noção de multidão. Depois de tanto esforço malicioso, escorrendo em suor, tinham intensos delírios em que seus corpos se evaporavam pela metade, tomando um aspecto pastoso que não os agradava. Tudo cedia a uma profusa liquefação, e mesmo que esta imagem não os alcance em si mesmos, era estranho verem como acreditavam que nessa evaporação suas almas esvaíam-se, pouco a pouco. Por isso, o amontoado se desfazia, e em pesadas pedras se prendiam, com intento de esfriarem a pele e só assim, permanecerem os mesmos.

Em um momento, um dos que estavam debruçados sobre as palhas, energicamente levanta-se, adeja as mãos e espanca-as, uma contra a outra, num abafado som de palmas que tentam agarrar mosquitos. Todos abriam caminho para este, cujo semblante penitente os tomava de certo respeito. Saindo de perto dos demais, em direção a mata, se perdia, e aos outros isso parecia significar o equivalente a uma pausa. Rigidamente inertes os outros pareciam aguardar o que saíra usufruindo de voluntário adorno permissivo.

Já pela noite escurecia a aldeia. O som que se destacava era de um ofegante cansaço. Nada acontecia mesmo que indicasse que algo poderia acontecer. Os habitantes  prostrados não pareciam incomodados em assim parecerem; bem estagnados, a noite trazia-lhes certa comiseração em seu silêncio; pela encenação cotidiana do ritual  e o mecânico subjugo a este, aparentavam  esperar  alguma purificação, mesmo que  para uma purificação absoluta houvessem veladas dúvidas imediatamente postergadas.

Pelo imperioso silêncio, e como se sucedesse oculto mais outro, mais oco ainda e grave, tão quanto um peso esmagador sobre o dorso, os habitantes permaneciam  esmorecidos. Podia-se enxergar em suas faces a apreensão dos que esperam com ardência o final. O retorno do homem que saíra para a mata carregava um importante sinal. Se examinássemos todos os rituais, feitos há incalculáveis somas de tempo, logo se perceberia que todos, sem exceção, tinham retornado e isso garantia a continuidade e a lisura do ritual. Se for verdadeiro que esperavam, o era também que estava a demorar; quatro, cinco ou seis longas horas se passaram, as estrelas no céu se subtraíam na noite que se estava indo, irreflexível sobre seus corpos cobertos pelo escuro. Como mortos que  exalam odor putrefativo, se podia sentir, por toda aldeia, um asfixiante clima, aromatizando o local com absurda nulidade. Era um momento confuso do ritual, no qual homens e mulheres se esperavam, já não pareciam esperar; se se mexiam, já não pareciam andar; se estavam imersos, eram dispersos que pareciam estar e assim, nesse aquilo de nem isto ser, iam, mas vinham cada vez debalde dúbios mais e mais. Algo dentro estava a emergir, cumulante e incontrolável. Inchados corpos, olhos sobressaltados na face, têmpora saliente, eram indícios do que lhes crescia por dentro. Insuportável odor de silêncio, saindo fora, em meio a gases, e em meio a estes, ruídos desconcertantes impossíveis de emudecer. 

E então, nenhum sinal, não havia homem nem mesmo retorno; a dúvida deu corpo a uma consternação, depois tristeza e lamento; depois furtiva zombaria que não os deixava de todo modo desesperançosos. Alguns se arremessavam ao chão, pois o que lhe pesava dentro tornou-se grave demais; riscavam o chão como por brincadeira, quebrando, de pedaço em pedaço,  frágeis gravetos; mais adiante, enchiam as mãos de areia umedecida e a lançavam nas paredes, e a olhavam cair e voltar ao chão e se esforçavam a pegar de novo o torrão e lançá-lo novamente; os raspadores de folhas de bananeiras emitiam até um som por demais fora do comum ziguezagueando uma folha na outra, e muitas outras ocupações inúteis emergiam de suas, agora, atarefadas  mentes. Mas a isso estava subjacente uma angustiosa e redundante necessidade de tornar o tempo sucessivo, de avançá-lo e ver no que vai dar.  

Enquanto não amanhecia e ainda faltava um pouco para se iniciar a aurora, se evaporava, junto com bastante suor, uma essência lilás que penetrava a mata, acentuando junto as folhas um resplandecente verde, o que as tornava inauditas, e por assim dizer, bem mais verdes que o natural. Enquanto davam conta de suas ocupações inúteis, seus corpos inchavam mais e mais, e um a um pendia sobre o chão soltando gases, e ficando arroxeados dos pés à cabeça. Os mais abalofados só conseguiam com os olhos sobressaltados algum movimento ínfimo e quase involuntário. Suas peles começaram a latejar; sobre as mãos as veias suspendiam-se inflamadas, prontas para explodir a qualquer momento. Tanto que nesse instante se ouviu na extremidade esquerda da aldeia um ploc! de balão estrondoso, e ao se virarem com dificuldade os curiosos perceberam que um dos habitantes da aldeia acabara de perder as mãos. Ensanguentado e paralisado, com braços em frangalhos, restava-lhe a cabeça inchando como bolha de sabão soprada da boca de uma criança. Não demorou muito, os outros espantados, bem mais excitados com o espanto do que com o homem, assistiram ao boom! final de sua cabeça flácida. Seu corpo caiu duro, a parecer um tecido ressequido. 

Era evidente que esse acontecimento aumentava a ânsia dos demais. A fadiga, que há pouco era a mais aceitável de suas sensações habituais no decorrer do ritual, exasperava-os condenadamente. Tudo pesava. O vento sobre seus rostos, os pulmões que como tijolos encimentados e pesados curvavam ainda mais seus dorsos, suas pálpebras semicerradas que continham cílios da gravidade de grossas correntes, seus beiços e línguas, pés e mãos todos inchados e igualmente roxos e lesionados, derramando um misto de baba e pus; e havia ainda aquele silêncio mórbido a exalar putrefação e entupir os sentidos restantes de mal-estar. Pulsava-lhes o coração ainda como aqueles tic-tacs prestes a desgastarem toda carga da pilha, e seu pulsar assim como de tais pêndulos, através dos inalienáveis segundos, cumpriam morosos  toda a  eternidade do interstício de um a outro. 

Mais dois estridentes plocs! de balão foram ouvidos, depois mais um, e mais um; em intervalos irregulares se sucediam as papoqueiras, e cada vez mais, a aldeia enxovalhava-se de estraçalhos humanos. Podia-se notar, em um canto mais escondido da aldeia, onde se concentrava mais abundantemente os bananais, dois homens agachados, um agarrado compassivamente no outro, como que esperando a inevitável hora se concretizar e hesitando se ir sozinho até a morte. Seus rostos tremulavam como se estivessem com um insuportável frio; entrelaçavam os dedos de uma maneira não-familiar, tenra e tensa, e enquanto eles se inchavam, e os gases soltavam-se de dentro de seus corpos balofos, compunha naqueles poucos instantes que inda lhe restavam, uma cena inabitual, dir-se-ia impensável, pois se havia o ritual e nele, vez ou outra, era circunstancial darem as mãos, agora, próximos da morte, estavam reduzidos a este gesto  de tal maneira que não se podia presumir-lhes outra necessidade com que ter. 

A todo momento saíam mais habitantes de dentro das ocas e, como  multiplicavam-se como peste em pleno terreiro para a estranha morte, logo se concebeu uma  atarantada cena. Muitos se jogavam molemente sobre o chão; havia na pele algo flácido demais, que um mínimo arrojo no movimento era suficiente para rasgar a carne inflada do corpo. O inchaço também lhes alterava os ossos, que se tornavam por demais frágeis, gaseificados, quebráveis como os mais finos gravetos, e se um movimento qualquer colocasse o osso apontado forçosamente contra a carne do corpo, era certo haver outras papoqueiras despejando para fora da pele ossos liquefeitos e vísceras aguadas. Com homens e mulheres, jovens e adultos se sucedia, aparentemente, a mesma coisa, na mesma desgraça eventual. Com as crianças, e havia bem poucas na aldeia, ouviam-se seus sussurrantes choros, e através de seu desconforto pela perda súbita dos pais, estavam a experimentar uma mortal tristeza. Tirava-lhes a vida não só  o inchaço repentino do corpo, mas a falta de afago orientativo que os pais, mesmo entregues totalmente ao ritual, ainda, furtivamente, eram capazes de praticar. Claro está, que pelo menos nos mais crescidinhos, com sete ou oito anos de idade, mesmo já aptos a durarem na vida, acontecia uma imediata desorientação, subitamente acentuada pela perda inesperada dos pais, que lhes deixava, e isso era o que significava no fundo para eles, sem modelos ou pedagogias para continuar o ritual. Morriam não só inflados e espocados como os adultos, mais silentemente, mais inocentemente, como se houvesse antes de tudo uma desnutrição interior bem mórbida no tirar-lhes a força da vida, em instantes desvanecida em nada. 

Aproxima-se a aurora; os primeiros raios se despregavam do sol, já incidindo sobre a aldeia. E era pálida a sensação de haver manhã. Já quase nenhum habitante da aldeia tinha vida. Os que ainda respiravam estavam com violência acometidos pelo inchaço. E parecia que os que mais duravam em tal estado, mais horrivelmente eram acometidos. Estalavam na mata sons de passos apressados, quase fugitivos, em direção à aldeia. Os pés tinham a pressa dos atrasados, dos que demoraram por demais à hora marcada, e sentem-se usurpadores de um profundo compromisso. Avançava pela mata o mesmo homem que se retirara no meio do ritual. Com seu aguçado olhar, avistara já a aldeia enxovalhada. Isso lhe insuflou no peito mais ar, e mais ligeireza nos passos, mais angústia também. Entre os bananais encontrou os primeiros estraçalhos dos corpos dos habitantes. Seus olhos friamente desestabilizados vagavam pela aldeia, não em busca de compreensão do que lá tinha conhecido, mas numa comunhão absoluta com os que ali estiveram. Se estava apressado para voltar, não era menos certo que guardava no fundo da alma uma elaboração primitiva e sentimental do que poderia estar acontecendo na aldeia. Olhou, então, sua cerrada mão, que parecia conter algo de singular preciosidade, e que iria certamente valer para o ritual. Levantou o rosto para o céu, obliquamente iluminado pelo sol que já se posicionava por completo lá no alto. Seus olhos pareciam absorver toda luz emitida ali, e lacrimejavam com indescritível resignação. Socou o ar uma, duas, três e outras inúmeras vezes, mas compunha com isso uma cena ainda mais irresignada, inconcebível, sem sentido. Não abriu a mão, e deixou-se cair sobre o chão, sofrendo do mesmo mal dos que ali estava. O punho direito sobre o peito. Mais alguns minutos, só mais alguns, e não era só a exaustão que o desfalecia…

KLEBER LIMA é bibliotecário. Nasceu em Teresina (PI) em 1984. Publicou o livro “Poemas I” pela Editora Penalux em 2016.

Anunciação

Não é possível olhar o alto

Se o ar ao redor está todo preenchido

O espaço pode ser este lugar sufocante

Nomeado

Mas não reconhecido

Não é fácil perceber o gosto

Se o que nos cabe é um pedaço ressequido

Sem a presença de um todo

Que nos faça acreditar

Não é prudente adormecer no caminho

Precisamos chegar e registrar o nome

Para que haja uma verdade momentânea

Da partida

Do motivo

Da carne viva

Não é comum os sons perderem a validade

Música esta que canta este tempo

Em que à memória parece ruído

Não é errado esconder-se

Da figura insana

Do momento não aguardado

Da convocação que não admite recusa


Mas não é prudente ausentarmo-nos

Todos os nossos sentidos são necessários

Mesmo que não haja espaço

Nem esperança

Nenhum movimento

Mesmo sem a tua companhia

Com a qual era fácil conseguir encontrar


FLAVIA FERRARI (Santana de Parnaíba/SP) é escritora e poeta. Escreve contos infantis desde 2014. Estreou na poesia em 2020, no início da pandemia. Teve poemas publicados pela Escrita Cafeína e pela Toma Aí Um Poema (menção honrosa). É mãe, professora e mantém um relacionamento amoroso sério com a poesia.

A mãe que não pariu

Era velha, vetusta

Centenária

A Mãe que não pariu.

Era viúva, pobre

Esquecida

A mãe que não pariu.

Lá!

Longe o eco da civilização

Não chega

O filho que desejava

E nunca veio

Também nunca partiu.

Apego? Negligência? Mistério?

O filho cristalizado no ventre

Carregou sem o saber.

60 anos a mãe gestou

Um filho que não pariu

Filho desejado, olvidado

Um cristo crucificado e entranhado.

Era centenária, viúva, esquecida

Aquela gestante petrificada,

Agora ascendida a curiosidade científica.


FRANCIS KURKIEVICZ é poeta, professor de Filosofia e Criação Literária. Natural do Paraná, vive em Vitória/ES onde se dedica à poesia. Publicou o livro de poemas B869.1 k96 (Patuá) e o livro infantil Meninices (Ayatori).

3 poemas de Thaíse Santana

PRETA POETA

Passo horas

remendando palavras

costurando versos

imprimo meu corpo

 na tessitura do verbo

que vai tingindo de preto

a poesia dos meus sonhos.

MEU CORPO

Meu corpo é verbo

fingimento

meu corpo é negro

movimento

meu corpo todo

enfrentamento.

POEMINHA DA VINGANÇA

Quando meu verso brotar

quando minha voz ecoar

quando a poesia nascer

quando a tua carne sangrar

eu vou me vingar de você.

THAÍSE SANTANA nasceu em 1989, em Itabuna-Bahia. Atualmente, mora na região metropolitana de Belo Horizonte, onde é professora de português. É autora de Mulher-Palavra, Patuá (2021). Participa de antologias literárias nacionais e internacionais. Destaca Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros n. 43, Quilombhoje (2020). Licenciada em Letras (UESC). Mestra em Letras (UFV) e Doutoranda em literaturas (UFF).

Tecidos

Todo mês

é como se um fantasma

se debatesse nos vãos

que meu sangue deixa

ao se esvair pastoso

e escuro

É como se

a ausência arranhasse

com agonia as paredes

que a comprimem

Todo mês

o que não foi

se manifesta em dor

no meu ventre

como memórias inexistentes

presságios fantasmáticos

do que me foi tirado

Uma vida

de laços despedaçados

nervos em frangalhos

mundo em ruínas

tomou de mim

uma vida

que poderia

ter preenchido a ausência

e parado as dores

e parado o sangue.

ÍRIS LADISLAU (1994, MG) é escritora e editora. É a idealizadora da micro editora Margem e autora dos livros Réquiem ou O sopro de Vênus (Urutau), Eu não sou a protetora das coisas frágeis (Penalux) e Memória Jovem: livro de memória da Moradia Universitária da UFMG (Margem).

Risca

Para Juliana Meireles

Correr o risco de enterrar nossos amores

num mundo corroído por canalhas

burocratas de classes sociais distintas

de grana e hábitos

brancos todos brancos

vestido em seu sorriso pálido branco

a palavra branda branca depois do velório

um pequeno alívio animadíssimo

com o remorso

chorar o choro do outro

é antecipar metade do nosso

logo ali

nunca cansado de velar

tanto desperdício

o Ocidente é genocídio

cuidar de filhos neste período é melancolia

fruto à altura da testa

bem maduro

falta de apetite olhando pro gosto.

MATEUS NOVAES, 40 anos, nascido, criado e enterrado vivo na cidade de Santo André-SP. Poeta não graduado. Sobrevive de trabalhos mal remunerados. É vocalista da banda Krias de Kafka. Em 2012 lançou o livro de poemas “Desistência” (Patuá). Em 2015, lançou a plaquete “TRETA: poema single” (Ave de Rapina). Tem alguns poemas publicados por aí. É pai da Alice e do Bernardo e simpatizante do tabagismo natural. O poema aqui publicado faz parte do livro “Um Frio de Hospício na Espinha”.

Múltiplas

Dentro de mim cadeado,

Porta aberta, cárcere privado,

Ventre ancestral do tempo,

Dentro de mim, muralha,

Que a palavra não apaga

Chica da Silva, Marielle, Anita,

Dandara, Pagu, Maria Quitéria,

Maria Bonita.

Dentro de mim cicatriz,

Pele de todas as cores,

Vozes em vários tons,

Chiquinha Gonzaga, Nara, Elis.

Dentro de mim despidas,

Cora Coralina, Carmens, Fridas,

Olhar sem filtro, singular sem fim,

Mulheres que sabem dizer não e sim.

Dentro de mim liberdade,

Cativa de múltiplas Marias,

Sagradas e profanas,

Terezas, Madalenas, Penhas,

Mártires, rainhas, vassalas,

Joana D’arc, irmã Dulce, Malala

Múltiplas que choram e riem

Ramos cortados que insistem em florir.

Dentro de mim cicatriz,

Pele de todas as cores,

Vozes em vários tons,

Chiquinha Gonzaga, Nara, Elis.

Dentro de mim despidas,

Cora Coralina, Carmens, Fridas,

Olhar sem filtro, singular sem fim,

Ramos cortados que insistem em florir.

VALÉRIA PISAURO, natural de Campinas-SP, exerce intensa atividade na arte poética. O requinte de suas poesias prima pela pluralidade de recursos, fruto de pesquisas, onde a variação de gêneros traduz a força e a leveza de um trabalho sofisticamente inovador, transitando com naturalidade entre o rebuscamento e o coloquial. Participa de certames culturais e idôneas antologias poéticas, tendo a felicidade de ter sido premiada em muito deles.

A afiada lâmina

das singelas palavras

escorria o sangue de jeremias

feito cão alvejado

angustiada o li

em prantos internos

de quem descobre pela terceira ou centésima vez

a fragilidade da condição humana

o muro branco, os ratinhos,

a insossa sopa e as excrecências

tornaram-se impiedosas armas

nas mãos do escritor

o murro no estômago

o muro sangrado e chapiscado

quem é deus e onde está

que não ouve jeremias e suas aulas de filosofia e seus gritos no pátio?

a sintaxe europeia chorosa

nos convida a sofrer com ela

nosso mal lexical

de comunicar dor por código puro, vivo e cortante

jeremias é mais que nome próprio

é menos que nome comum

é adjetivo

e predica pela afiada lâmina

e nos fere até o âmago

SHARA LOPES nasceu em Valença do Piauí. É professora de Língua Portuguesa do IFPI e doutora em Linguística pela UNICAMP. Coordena o projeto Clube de Leitura Literalize-se e gerencia o perfil do instagram @mulheresescritoras.

Garotos brincando no apocalipse

há tempos deixei de ser caubói

deixei de ser herói

há tempos redesenho a nossa saída

pela porta de zinco da última casa velha

a casa que nos alertava

sobre os pregos enferrujados as bombas nucleares os torturadores os falsos profetas

sobre os mocinhos e o sorvete de creme

derretendo no calor acrobático do fim

e quando subo na última árvore existente

já não há mais nenhum decreto

nenhum homem

nenhuma faca

nenhuma raiva entre os dedos:

vejo eu e você

caminhando

olho para o céu rosa rodeado de urubus

mapas indecifráveis nas mãos sujas de areia

fracassos germinando lentamente nas plantas dos pés

desertos gritando à nossa frente

sintetizadores macerando os tendões

por que ainda toca aquela música sobre a possibilidade

de um caminhão de dez toneladas nos atropelar?

nesse momento eu te ofereço a minha fruta

a última

para você cravar a língua dentro dela

para matar a nossa fome vermelha

para dizer alguma coisa que não cabe numa garganta cheia de sementes:

há um apocalipse no buraco negro dos seus olhos

me levando.

LUIZ HENRIQUE SOARES nasceu em Jaboti, Paraná. É doutorando em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Possui textos publicados em diversas revistas literárias brasileiras. Atualmente vive em São José do Rio Preto.