Wellington Silva, III

Epiderme de argila

O insistente marrom do cedro africano  

Esta cor de fim de céu     a oeste

Areia de siena queimada/o vermelho que

se esconde — a argila a ferrugem   a forma

Pátina sobre a face dos antepassados

O chão da estrada

O pó que persegue pneus e se cansa

A argila das sandálias

A meia de poeira do andarilho

até os joelhos

Argila ao redor dos olhos

Íris de mel silvestre

A forma que trai o olhar

O céu de zinco fundido

A teoria dos sistemas tangentes

A libido dos sistemas

A dízima periódica das formigas

A reticência numérica da vida

Há poemas à revelia

e histórias para “tirar de tempo”

O sertão é um conto de cem arremates

Wellington Amancio da Silva é sertanejo nascido e criado no interior da Alagoas, é professor da rede pública, músico e mestre em Ecologia Humana. Publicou livros de ficção e de ensaios em lugares interessantes. É membro da equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Fundou as Edições Parresia em 2019. É cofundador do Grupo Arborosa de literatura e arte, juntamente com Leo Barth e Mayk Oliveira. Destacam-se os livros, Figuras da indiferença (2019), Gumbrecht leitor de Martin Heidegger (2020), o reneval (2018), Primeiros poemas soturnos (2009), Apoteose de Demerval Carmo-Santo (2019), Os outros, sertão de argila escura (2021).

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Instagram: @wellington_amancio_fotografia/

Débora Bacelar, Polinização

a flor não sonha com a abelha
ela
apenas floresce
e a abelha
aparece
sempre fora assim
uma pequena
semente
prende-se
na terra
querendo vida
a operária
desde cedo sabe
sua funcionalidade
brotar requer certa força
não apenas esperança
se assim fosse
o mundo
bom seria
e nenhuma abelha
trabalharia
dias árduos
sabe pouquíssimo a flor
por que precisa
da bendita abelha
que de grão em grão
mantém
cultivada
e fecunda
a espécie humana

Débora Bacelar nasceu e mora em Manaus, Amazonas, tem 24 anos, é profissional da área de Letras – Língua e Literatura Portuguesa e pesquisadora no âmbito literário. Tem poemas e contos publicados em revistas como Ruído Manifesto e Mal de Ojo (2021) e em coletâneas como LiterAmazônicas (2021). Escreve, pois acredita na transformação por meio da palavra e, além disso, busca expressar o não dito nas estrelinhas da poesia.

Sindell Amazonas, Não há nada pesado em meu coração

Mãe dos deuses

Mãe do tempo

O que está pesado é o que mora em minha mente

O que está pesado mora em minha mente

Dentro da consciência

Meu coração é leve, nuvens rosadas de um domingo

Fora da minha onipotência

Não posso controlar o tempo em minha volta (deusas não são capazes de tudo?)

Não posso controlar o tempo em minha volta

Deusas não são capazes de tudo?

Fora do que há de mais poderoso e imortal dentro de mim

Como uma galáxia se expandindo em si mesma

Explodindo as estrelas que me habitam

Eu sou fraca

O que está pesado mora dentro da minha mente

Pesado demais para que me mantenha em pé

Fraca, ninguém

Nada

Pesado demais para que me mantenha em pé

O que está pesado mora dentro da minha mente

Mas deusas não carregam tudo em suas costas?

Sindell Amazonas tem vinte e um anos. Amazonense, manauara. Cursa Letras – Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Amazonas. Trabalha com revisão e preparação de textos.

Caio Girão Rodrigues, Camas

Por que fazer promessas secretas a pessoas impossíveis? Desde o berço até esta calçada suja, úmida e fria, o que me antecede o sono é a nítida consciência de que o inferno está à espreita. Esse segundo que precede o sono é como nascer para a morte. Cabe tanto infinito nesse tempinho curto, tanta coisa se passa. Alcançamos, dizem os artigos científicos, estados transcendentais de compreensão. E esquecemos. Assim como vamos esquecer nossa própria morte depois de morrermos.

Nunca gostei mesmo de travesseiros e lençóis, sempre fui de dormir pelado, de resistir ao frio, encolhendo-me, recusando as fronteiras de cobertas e agasalhos. Uma geografia mais íntima. O contato com o ar. Isso é coisa de criança. E a infância tem esse cheiro de pano molhado de suor antigo, mofo e água sanitária. A infância para mim é aquela salinha da creche, em que as tias costumavam me levar depois do banho, esfregando a toalha pelo meu corpo, depois seus peitos, e às vezes fechavam a porta, tiravam também as roupas, oferecendo os seios imensos, como se fosse um presente, passando a mão por lugares que sequer eu tivera tempo de mapear. Elas riam. Eu lembro dessas risadas com precisão. A merda é que quanto pior tá a coisa mais esses momentos me visitam. Quanto mais escuro, mais risadas. É terrível ficar com os olhos encharcados no meio do dia, ter que engolir as lágrimas para não me manchar.

De repente fico rindo à toa sem saber por que, e vem a vontade de sonhar de novo, te encontrar. As reminiscências da tua voz rouca, no último instante de consciência acordada, me agasalham mais do que qualquer pano. No exército a gente dormia em tábuas, lembra? Insistiam em chamar aquilo de cama, nos obrigavam a deixá-las arrumadas, ainda que não fossem mais do que farrapos podres, nos quais se entranhavam baratas, moscas, formigas. Preferíamos dormir no chão, mas era proibido. Acho que sempre gostei de dormir no chão. Naquela época que fomos morar juntos dormimos no chão por quase um ano. Apesar de tudo o que os médicos dizem, dormir no chão nos bota num estado etéreo.

As camas, eu acho, são mesmo feitas é para guardar tempo, guardar secreções, movimentos, como um palimpsesto imperturbável daquilo que não se escreve. Uma boa rede, você sabe, é mais confortável do que qualquer cama. Mesmo aquela king size que comprei com todas as economias. O tamanho dela era só pra guardar as histórias de tanta gente que passava por mim. Houve semanas que, terrivelmente, eu pensava nas pessoas como pratos num cardápio. Semanas que transava com mais de dez pessoas. E ficava o cheiro impregnado. Aquela cama guardava mais do que nomes ou sono. Um registro preciso das horas e sensações. Debaixo dos lençóis havia mapas de líquidos. Toda cama que se preze tem desses mapas por baixo da lisa superfície visível. Ilhas de gozo e dor.

Eu queria escrever poemas a um você genérico, mas sempre acabo escrevendo a você. Sempre acabo pensando em você. Nos últimos dias tenho sonhado com nossas conversas sobre sonhos e pesadelos, sobre como seus sonhos eram tão inventivos e cheios de significado, enquanto os meus eram como lembranças terríveis e assombradas, às vezes lembranças de um futuro óbvio inevitável. Por que você não me visita para seus sonhos?

Eu queria pedir desculpas, queria poder chorar no colo da mamãe e ficar emburrado por ter meus segredos revelados. Minhas palavras estão presas na sarjeta. A única ponte que consegui construir entre essas ruas e uma vida apresentável é uma ponte falsa. Caminho sobre mentiras. Minha cabeça rodopia, rodopia e, invariavelmente, volta para aquelas tardes úmidas na creche, minha boca cheia de partes das tias, minhas mãos imobilizadas, minha culpa de criança idiota. E é como se você estivesse lá e aqui, no inferno e na sua representação.

Caio Girão Rodrigues nasceu em Fortaleza/CE. Escreve há dezesseis anos, tendo publicado a novela Meus Escorpiões (disponível na Amazon). Alguns de seus textos aparecem em revistas (como a Travessa em Três Tempos e a Torquato), jornais (como Diário do Nordeste e O Povo), exposições (como a THMT-18 Rio) e coletâneas (como o selo Off Flip). Pode ser facilmente encontrado participando de oficinas de escrita criativa. Atualmente vive no Rio de Janeiro, com sua esposa, Juliana, e seu cachorro, Demetrius.

Instagram: @caio_girao

Andriele Moraes, Morro-não-morro

Se não fossem as unhas de Ana, quando ainda recém-nascida, alcançassem o rosto para fazer arranhões vermelhos, desses que ninguém sabe a origem porque é uma pequena gente sem muito o que falar. Se não fossem as mordidas, mesmo sem dentes, nos peitos da mãe toda vez que mamava. Se não fosse o choro de Ana nas madrugadas, se não fosse aquele banho todo cheio de não-banho. Se não fosse nada disso, a vida de Ana poderia não ser um “morro-não-morro”.

É que a vida da gente, mesmo sem as lembranças, elas deixam marcas. Ana nem sabia como era recém-nascida, não se lembrava do trabalho que dava pra mãe. Pouco menos, sabia que podia deixar a mãe em estado de depressão. E, mesmo sem querer, nessas encruzilhadas das experiências, a menina fez.

Márcia, a mãe de Ana, mesmo querendo um “morro-não-morro” , cuidava. Cuidava não porque cuidado é de outro jeito. Márcia tentava. O balbucio do nascimento tornou Márcia na mãe que num sabia ser mãe. Mas quem sabia? Parecia que toda aquela gente cheia de conselhos maternos conhecia a maternidade. Márcia não. Pra mulher, com o peito já caído e a pele enrugada, nunca conseguiu ser a mãe que as outras mães queriam que ela fosse.

Ana desenvolveu o amor de filha por Márcia, Márcia quase devolveu esse amor. Se não fosse por um tiquinho de “morro-não-morro”. Ah, se esse elo entre as duas pudesse ser mais forte.

A voz de Márcia tentando cantar pra Ana a fazia chorar mais ainda. O alimento do peito de Márcia para Ana fazia Márcia não desejar nunca mais a menina. A voz e o peito da mãe. O choro da filha. As duas não queriam estar ali, as duas queriam fugir. Ana sem saber ou conhecer essa palavra, queria tá longe. Longe da mulher que não suportava seus choros. Márcia, por sua vez, até queria Ana por perto, mas só quando a menina tratava de dormir porque aí ela esquecia das existências da vida.

Ana cresce, Márcia envelhece. Tudo se distancia. Ana não precisa mais daquele leite. Márcia não precisa mais colocar Ana pra dormir. Essa foi a sorte do não morrer das duas. No embalo desse espaço num tinha hora pra conversa. Foi tanto choro que Ana e Márcia queriam viver era mesmo no silêncio. Era preciso ir se acostumando com bocas caladas. Márcia, que mesmo com o marido que não era pai, preferia ficar quieta e não lembrar da maternidade. Ana, aprendeu a ser igual a mãe. Calou-se. Não entendia o motivo, mas calou-se.

A menina já com 10 anos não sabia pronunciar nenhuma palavra. “Sua filha ainda não aprendeu a ler, é a mais atrasada da escola, a menina quase não fala”. Márcia consentia sem dizer nenhuma palavra. Conversava com a filha não, como a menina podia escrever algo se nem palavra conhecia?

Márcia, sem saber, queria que a garota conhecesse o menos possível dessa sobrevivência. É que essa mulher cheia de dor da maternidade – quer dizer, maternidade não, tortura – não queria que a filha soubesse do sofrimento que era querer saber de tudo. Precisa saber palavra não, precisa saber o que é filho não, precisa saber o que é casamento não. Todo mundo vai morrer. A gente só tem que esperar a nossa hora e pedir pra sofrer menos, falar menos, viver menos.

Na inércia da vida, essas duas mulheres se conheciam e se abraçavam. Na Terra, com tudo girando, elas se distanciavam.

Marido não. Pai não. O homem era mais o homem de rua, desses que sabe viver mais do que qualquer um. Márcia olhava pras palmas da mão, queria era se estapear pra ver se assim morre. Ana olhava no espelho e via que da barriga enorme de tanto comer de nada saia, nem palavra, nem choro, nem amor. Já o sujeito – que deveria ser pai – falava e falava muito. Falava de dor. Cachaça que no dia seguinte virava dor de cabeça. Dor de cabeça tratada com silêncio por Ana e Márcia.

As duas, já mulheres, sabiam que o único ato de amor que as uniam era a boca calada e a alma cheinha com o peso das palavras. Dava não. Ana, sem saber, sabia do que fez com a mãe. Márcia, sem querer, sabia que a filha não teve culpa pelo sofrimento de parir alguém. O silêncio do sono, das duas juntas. O silêncio. Esse silêncio que tanto tem pra falar era o que fazia de Ana e Márcia as mulheres resignadas.

É que Márcia não esperava, não estava preparada, mas não era só na hora do parto que a dor de ter filho se difundia. Era também depois. E depois. Ninguém a ensinara o que era maternidade compulsória. Ana não esperava logo sair pelas entranhas dessa mulher que pouco se conhecia.

Ninguém conhece ninguém. Todo mundo conhece o medo. Principalmente a dor. Ah, mas essa, elas sabiam muito.

Ana tinha mãe não. Também não tinha pai. Márcia não tinha filha não e nem marido. Tudo o que se tem na vida é a família que se constrói não. Essa construção não cabia em Ana, Márcia e o não-pai e não-marido. Isso não era família não. Mas também era porque um herdou do outro o silêncio de muito sofrer.

Márcia queria era morrer e não viver nesse “morro-não-morro”. Queria que Ana e o não-marido também morressem. Escutou tanto, quando criança, que o céu é o dos melhores lugares que queria partir era pra lá.

A família que não era família só conhecia o varal cheio de roupa, o homem cheio de cachaça e a casa cheia de nada, nadinha. Tão nadinha que aos poucos se formando um buraco ali na casa. Buraco mesmo, desses que a gente cai e se não é salvo por alguém morre pra sempre lá, no escuro, embaixo da terra.

Era deus escutando Márcia. A mulher queria morrer, pois que fosse logo pra ser consumida pela terra. Mas nem isso ela conseguiu. Buraco baixo demais pra morrer. Fundo demais pra viver muito tempo.

“Pois, mãe, trate de cavar mais aí esse buraco”, foi das poucas frases que Ana dirigiu à Márcia. Se viver é ficar calada aguentando e se escapando de sofrimento, que seja de um lugar bem lá debaixo. Ninguém as via, ninguém as queria enxergar. Mas uma coisa que não explicaram pra elas: mulher é vista não. Mulher é boa calada. E Ana e Márcia cumpria mesmo o papel que os outros queriam.

Quando ouviu a porta batendo, sentiu o homem entrar. Nesse momento, Ana e Márcia se enfiaram naquele buraco. Agarraram-se. Ficaram juntas. Num queriam mais essa vida não. Num queria nem ver cara de homem ou de qualquer outra pessoa. Ali, naquele buraco, que nem eco fazia, as duas esperavam a morte como sempre fizeram.

Márcia com a pele enrugada de tanto sofrer. Ana com a pele macia do tanto riso preservado. No buraco da vida das duas, as bocas caladas se uniam, a descoberta do que era ser mãe e filha nascia. Então é isso: ser mãe era acolher o sofrimento da filha, ser filha é suportar o sofrimento da mãe.

E quem vai dizer pras duas que, mesmo sem falar, elas já sabiam muito da vida?

Andriele Moraes tem 25 anos. Pernambucana residente em São Paulo, jornalista e uma das criadoras do grupo de leitura e podcast “Clube do livro feminista”.

Thássio Ferreira, Drive

Já nos cruzáramos algumas vezes, nos elevadores, no saguão, na calçada: ele aguardando um táxi, distraído, enquanto eu esperava o manobrista trazer o carro alugado ­­— uma dessas escolhas banais à superfície, mas que em vez de se distinguir pela praticidade, pelo simples gosto, podem ser excruciantes, como a melhor forma de se locomover pelas cidades. Especialmente as que não são a nossa. Do café à janta, em dias, parecendo espontânea porém calculando incessantemente os riscos de cada gesto, corretora de seguro do meu próprio corpo. Entre os perigos de me perder sozinha e os de ter minha solidão mais íntima e mais à mostra — matéria palpável do que sou — violada por outrem, costumo guiar a mim mesma. Parco alívio, porque as escolhas são incertas, e o peso de fazê-las, essa coragem, chega a doer-me feito uma cólica.

Eu percebera, nesses breves encontros. Não era difícil, embora também não fosse uma evidência; é que sou boa nisso: gaydar que chama, né? Arrá. E a mais: no bar do hotel, então: baixo risco. Abri minha solidão à companhia dele, quando me sorriu perguntando Tudo bem? e se apresentou. Além do a mais: gato, e pra além desse além: algo como uma promessa de ser interessante. Sorri também, apresentei-me, equilibrando a voz entre o flerte (vai que), o pé atrás (vai que também) e uma espécie de acolhida fraterna. Alguém com quem conversar, apenas.

–– Posso me sentar com você pra um drinque? — a entonação desarmada, como quem sabe que a simplicidade franca jamais será clichê, e a recusa jamais será desonra (talvez eu devesse imprimir isto numa camiseta). Um drinque, ora. Se não, vida que segue. Não é não, e não é nada demais. Mas aceitei.

Falamos amenidades. Ambas a trabalho naquela capital tão quente e úmida feito um útero. Eu tomava uísque com gelo, ele pediu gin tônica. As duas capixabas: eu do norte, ele do sul. Partiria no dia seguinte. Deu-me algumas dicas de restaurantes, colecionados em visitas frequentes àquelas margens da Baía Guajará. Um drinque se tornou alguns: conversávamos cada vez mais livremente, quase cúmplices de algo que ainda não sabíamos o quê. O bar se esvaziou e restamos apenas nós e o barman em meio à decoração cafona emulando a floresta. Acho que eu terminava o quarto ou quinto uísque quando ele começou a contar sobre a noite anterior:

–– A semana foi puxada, mas ontem consegui voltar mais cedo aqui pro hotel. Aí entrei num aplicativo, sabe? Aqueles de pegação. Eu tenho um pras mulheres e um pros caras. Parece estereótipo, mas é empírico: com homens é muito mais fácil marcar um encontro de imediato.

–– Claro, Sherlock, pra vocês é bem menos arriscado encontrar um desconhecido no meio da noite. Não tem a ver com tesão. Pelo menos, não só. Não sempre.

Ele processou a espetada por um instante, enquanto eu calculava meus próximos movimentos — mezzo leoa, mezzo supercomputador — agora que o bonitão deixara claro que: talvez sim.

––  Tem razão. Todo modo, mesmo quando não rola na hora, é uma interação diferente. Tipo, é mais comum eles estarem propensos a um encontro cuja ideia é terminar na cama. Não tô julgando, não é uma crítica. Apenas era a minha vibe ontem: menos voz e mais tato. Foi uma semana foda.

Pedi outro uísque e levei a mão com que acenara ao barman até os cabelos: primeiro passando os dedos entre os fios e depois brincando de torcer alguns num cacho, só pra soltar em seguida — gesto deliberado de: estou a fim.

–– Comecei a conversar com um cara. Chamei pra beber aqui, mas ele disse que preferia dar uma volta, tava de carro. Beleza. Quando entrei no carro o sujeito era um delícia. Me animei, né? Começamos a rodar pela cidade, conversando. Aquele papinho: faz o quê da vida, de onde eu sou, por que tô aqui em Belém…

–– Deixa eu perguntar: tá certo que pra você é menos arriscado, mas tem umas histórias. A gente lê, ouve falar. Não rola um medo? Entrar assim no carro de um estranho?

–– Rola. Comigo nunca deu ruim, ainda bem. Algumas vezes apitou um sinal de alerta, eu caí fora, ou paguei pra ver e foi só alarme falso. Mas é bom ter umas táticas, minimizar os riscos. Deixar o cara ligado que se tentar alguma coisa, vai dar merda. Eu e um amigo de vez em quando avisamos o outro: Tô indo encontrar esse fulano, envia foto, se eu não der sinal em duas horas, me liga!

–– É uma boa tática.

–– É. Tem outras. Lá em casa, se chamo um cara que não conheço, até com mulher também, quando o porteiro interfona pra deixar subir eu sempre peço pra interfonar de novo na saída, confirmar que tá ok a pessoa ir embora. Minha irmã, quando pega táxi ou uber de noite, entra no carro e diz pro motorista esperar ela mandar uma mensagem antes de dar a partida, pra não enjoar com o movimento. Aí, malandramente, fala que a mensagem é pro irmão, avisando que tá a caminho. Às vezes até pergunta qual a placa, diz que é pra eu saber quando ela chegar. Ela sempre me avisa de verdade, mas eu às vezes faço esse teatro só pro maluco não ter ideia, ou adapto pra uns encontros, até zoando: Ó, enviei minha localização em tempo real pro meu irmão, pro caso de você me sequestrar. Funciona como quebra-gelo, mas se o cara não levar na esportiva, é mau sinal…

Cheio de manhas, ele. Eu anotava mentalmente as que não conhecia, feito uma aula de segurança pessoal em tempos modernos. Ou talvez algo menos hierarquizado: a sororidade possível naquele bar, ainda que mero arremedo (até porque, so-ro-ri-da-de: palavra teu: visalizando   passamos ta esperar ela mandar uma mensagem antes de dar a partida, pra nias seguidos? ou  passamos ão grande e já gasta pra caralho. Ou pra buceta. Enfim). São tempos inusitados, ainda mais depois do quinto ou sexto uísque. O álcool e a promessa de um ser interessante a se cumprir em carne e voz à minha frente faziam meu cérebro tecer aproximações entre nós duas. Resolvi provocar, mezzo a sério, mezzo descontraída com calabresa (calculada, claro): sorriso aberto, mas olhos duros de quem sabe os riscos em deixá-los dançar solto:

–– E eu deveria avisar alguém sobre estar com você neste bar?

Recostou-se na cadeira, alargando peito, ombros e o próprio sorriso transformado em riso, depois sorriso de novo.

–– Bom, eu diria que não. Mas sinta-se à vontade.

–– Acho que o barman é testemunha suficiente. Por enquanto.

Tornei a mexer nos cabelos. Ele retomou:

–– Todo modo, fiquei atento ao trajeto. Conheço um pouco a cidade. Eu não tinha nada de valor, só o celular, e o cara tava dirigindo pelas vias principais, sentido Centro. Não parecia perigoso. Coloquei a mão na coxa dele e falei que ele era um tesão.

Aquele tesão pronunciado alongando nitidamente o s: sinal. Mas as mãos quietas (admito: precisei piscar algumas vezes pra garantir que sua mão esquerda na minha coxa era apenas uísque e desejo), os olhos dançando ao redor, feito não tivessem ainda se dado conta: eu era o único par à vista. Como se aquela conversa pudesse tomar um rumo totalmente diferente caso aparecesse alguém mais interessante. Homens são umas bestas.

— Aí ele perguntou se eu topava ir no drive.

Seus olhos finalmente se fixaram em mim. Ainda dançando. Feito uma lap dance, talvez. Esperando uma reação, talvez. Por um instantésimo de temporalidade, me senti como se tivesse tropeçado:

— Drive?

— Pois é.

Riu. E com aquela palavra que ainda não fazia sentido, aqueles dentes, veio o gosto metálico do anzol. De quem se acreditava seduzindo, caí em mim: atraída pelo ziguezague como uma promessa a luzir na água, bruxuleante, até o gesto, o arpão, a mordida, atravessando-me os lábios. Putaquemepariu. Mulheres somos umas bestas também. Nós duas, eu e ele: bestas dançando a esmo.

Quando sua boca rearticulou-se em movimento, eu sabia o que vinha a seguir: a fisgada. Cacete. Puxou a linha devagar, reclinando-se na minha direção e abaixando a voz:

— Na hora achei que fosse o nome de um motel. Ele tinha dito que trabalhava com turismo, por isso não queria vir aqui. Virou algumas ruas e no fim de um muro comprido embicou num portão de alumínio. Parecia um motel normal, de fora, mas pega a visão: você entra, tem o caminho dos carros, e nos dois lados umas cortinas grossas, de lona, separando as vagas. Você corre a cortina pro lado e estaciona. Cada vaga é separada da outra por um muro, só que a céu aberto! Sem teto! Lá dentro tem o espaço pro carro e um telhadinho, uma meia água, saca? Tipo uma varanda, ao lado da vaga a descoberto. Doideira. A nossa varandinha tinha um sofá, uma mesa de concreto fixada no chão, e uma bancada separando essa área social de uma pia de cozinha e um banheiro.

Fez uma pausa, me olhando diretamente, pupilas congeladas num passo estático: mão que alcança e puxa.

— Um motel-estacionamento. Tipo um cinema drive-in, mas sem o cinema. Aí eu entendi o nome. Me deu um tesão louco. Era meio surreal, mas achei incrível, de tão inesperado.

É um lugar interessante, este: em que parecemos enxergar as engrenagens com mais clareza justamente por desejar que elas alcancem seu efeito. Sorri, antes mesmo que ele completasse:

–– E tô nesse tesão até agora…

Certa vez li que o cérebro feminino é mais eficiente em processar múltiplas tarefas que o masculino. Ao menos essa vantagem prática (se for verdade). Como: calcular, ao mesmo tempo: os riscos, o risco a mais de seis ou sete uísques, o ritmo, os passos da dança em meus próprios olhos, agora explícita, estendendo-se pra dançar junto, e a exata medida de alargamento do meu sorriso, quando todos esses cálculos disseram sim.

Thássio Ferreira nasceu em São Gonçalo e vivo no Rio de Janeiro. Poeta e ficcionista, autor dos livros (DES)NU(DO), Itinerários e agora (depois), de poesia. “Drive” foi publicado na coletânea de contos Nunca estivemos no Kansas (ed. Patuá). Escreve a coluna Alguma coisa em mim que eu não entendo, na Revista Vício Velho, e tem contos e poemas em publicações como Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, Jornal Rascunho, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Germina, Revista Ponto (SESI-SP) e InComunidade (Portugal). Venceu os prêmios Off-Flip e Cidade de Manaus 2020 (contos).

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Instagram: @thassiof

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Mariana Vieria Gregorio, Escondidinho

Perguntei-lhe delicadamente desde quando tinha relações com mulheres. Se era lésbica há muito tempo. Há quanto tempo assumida? Assumida não, não era isso o que eu queria saber. Há quanto tempo sapata. Há quanto tempo gosta de mulher. A primeira vez, ela disse, foi aos 50 anos. Olhei para o rosto dela; não devia ter mais de 55. Talvez tivesse 51. Cinquenta e alguns meses. Então, coisa recente, me interessei mais. Porque exalava segurança. E gritava aos quatro berros, como é bom, como é bom.

            Contou que foi exatamente no aniversário de 50 anos. Com 50 anos, resolveu sair sozinha. Mas tudo aconteceu um pouco antes, coisa de anos fermentando. Um tesão por uma vizinha, uma colega do pilates, perguntei. Ela parou e pensou um pouco. Até podia ser que tivesse tesão na professora de yoga. Mas como a kundalini, disse acentuando o ní, mexe com a energia sexual, não pensou que era tesão pela professora. A kunadiní abre os chakras, o chakra aqui, e apontou para o centro do corpo. O centro do corpo, que é a vulva. E desembestou a falar de tantra, mas eu não queria saber disso. Queria saber do pouco antes do aniversário, o porquê do aniversário.

            Então, ela disse que começou com a filha. A filha é bissexual, e veio contar com 20 e poucos anos que namorava uma garota. E foi uma perturbação, ela disse. Para mim, para o meu marido, mas para ele menos. Ele dizia que era só uma fase. Eu não acreditava em fase, então para mim foi profundo. Foi como uma traição. Eu sentia dores no peito, eu enchi a paciência dela. Brigávamos. Mas sempre brigamos, gostávamos de discutir, das intensidades. Às vezes, eu imaginava que estávamos dentro de um filme do Almodóvar, lágrimas, frases de efeito, o vermelho. Então, eu gritava com ela e dizia que não aceitaria, mesmo já aceitando, a saia longa vermelha. Daí, tudo acalmou, como acontece depois das tempestades. Essa é uma história de clichês, tempestades e calmarias. Acalmou, ficou quieto até demais, porque a filha largou a namorada. Aí, a questão sumiu da vida familiar, dos jantares, como uma foto de polaroid se desvanece até sobrar só os rastros dos corpos. Claro, escuro. Mas os rastros ficaram comigo, ela disse. Porque eu ficava pensando, como será que é. No fim, eu admirava a minha filha, apesar de ela não ser das mais resilientes. Eu a admirava porque ela se entocava em cavernas por dias a fio, e saía depois, respirando o ar fresco, como se nada tivesse acontecido. Mas o que tinha nessas cavernas? Isso ela não me contava, porque não confiava muito em mim. Compreensível. Como uma filha vai confiar numa mãe que a perturbou só por gostar de uma garota? Ela se mexeu na cadeira. Mas então, aquilo ficou.

            Ficou e se instalou. E foi alargando. E tomando conta primeiro dos meus sonhos. Depois dos devaneios. E entrou nos meus pensamentos na hora que eu fazia um sexo mediano com o meu marido. Ex-marido, desculpe, é recente. E, foi aí, próximo do meu aniversário de 50 anos, eu que, todo esse tempo, servia minha família, servia meu trabalho, e meu trabalho que é de funcionária pública de coisas burocráticas da justiça, então eu também servia o Estado, aquela deusa dos olhos vendados, sem nunca entender para o quê tudo servia direito, nem mesmo a minha família, porque ninguém nunca elogiou o meu escondidinho. E o meu escondidinho, receita de família, passada de geração a geração, era para ser especial. Mas ninguém nunca me pedia a receita. Eu nunca pude dizer assim: não posso te falar a receita, é segredo de família. Então, eu que vivia nessa roda modorrenta, apesar dos tremores que hora ou outra atazanam, decidi que iria ter um aniversário diferente. E sozinha. E iria num lugar que nunca fui antes.

            Imaginei que ela tinha ido a um lugar lésbico da idade dela – sei lá, um bar onde toca Ana Carolina. Mas não, ela foi num samba, o que é curioso. Porque ela conectou essa vontade de experimentar mulheres com um samba? Eu não entendi, mas acho que era uma roda de samba de mulheres, e tinha uma que tocava caixa, com as mãos em concha, as unhas limpas e curtas, os braços fortes. Sentada, uma perna de cada lado da caixa, os ombros um pouco curvados. Não tive coragem de perguntar se ela gostou dos peitos, das coxas ou da vulva aberta, mas imagino que eram as mãos. O movimento das mãos batendo na caixa. Pensando assim, impossível não se apaixonar. Uma mulher de cabelos quase raspados, me disse, brinco nas orelhas, sorrisão alvo, só parava de bater nas caixas para virar o copo de cerveja boca adentro. Garganta adentro. E ela e a caixa formavam uma coisa só, e quase se decepcionou pelo fato da mulher não ter a caixa no lugar das pernas. Daí, porque era o aniversário dela, e porque iria fazer o que quisesse, pediu que a mulher se sentasse na cama e ela ficou entre as pernas, sendo a caixa. E as mãos com unhas limpas e curtas, as mãos incansáveis, continuaram a batucar. Então, você se apaixonou, eu perguntei.

            Mais ou menos, ela disse. Não foi como paixão à primeira vista, não foi como nos filmes, não é um acaso. Eu fui para lá determinada. Determinada a ser outra no meu aniversário de 50 anos, e eu me arrumei bem bonita, e parecia que ainda tinha 40, porque eu me cuido, sempre me cuidei, sempre passei protetor solar. E sambo bem, modéstia à parte. Seria melhor se nos almoços de domingo, que eu passava desfiando frango e amassando batata para o escondidinho, eu oferecesse à minha família a minha dança. E eles se alimentariam desse suor, e talvez entrassem junto comigo na alegria. Mas não, é uma coisa maldita essa, o fato da gente ter de comer. A gente tem que comer. Todos os dias. Já pensou nisso? A gente não vive de beleza, de espetáculo. Inclusive, essas coisas dão muita fome depois. Então, eu sabia que a mulher que batucava na caixa era sapatona. Porque eu procurei antes no instagram, eu pesquisei bastante, eu tinha certeza. Eu não ia sem dar ponta no nó. Ponto, corrigiu. Ponto no nó.

            E, também, tem isso, eu disse que meu desejo ia alargando sem querer, tomando conta de mim, mas eu procurava manifestar. Aos poucos, eu procurava sim. Porque eu pensava na minha filha, e o porquê daquilo ter me perturbado. Ela viveu a juventude dela de outro jeito, não teve filhos nova, não casou. E daí, ela pode ser bissexual, namorar uma garota, contar para a família, criar um drama, largar a garota e continuar vivendo, sem arrastar crias. E era difícil entender o que é a bissexualidade, mas também aprendi com ela. Pareceu fácil quando ela contou que, agora, estava apaixonada por um homem. Um homem mais velho, inclusive. Fiquei com o coração desconfortável, passando vick toda hora no colo para ver se diminuía o aperto. Uma noite, com os olhos estatelados, o teto com a tinta cor-de-creme que eu escolhi, fixo, liso, lá no alto, eu falei em voz alta: preferia que ela tivesse continuado com a garota. Saiu como um suspiro. Meu marido se mexeu, ainda acordado, para o meu azar. Aliás, ex. Ele riu. Riu do meu desabafo, e disse: eu falei que era só uma fase. E a arrogância dele me irritou. O meu desabafo tinha aliviado um pouco o aperto, porque admitir sempre é bom, e admitir assim, em voz alta, para a gente mesmo, é sempre melhor, mais sincero. Não foi para minha filha, nem para ele, nem para a terapeuta. Foi para mim mesma. E destravou, clác, apesar de toda a ferrugem, abriu. Um espaço. Mas aí ele veio e disse que sempre teve razão. Não sei, é essa coisa do homem. Eles nunca acreditam de verdade que as mães têm uma conexão especial com os filhos, seres que nutrimos no nosso ventre nove meses, eles desprezam qualquer intuição maternal. Acho que têm inveja. Porque não gestam, não entram em trabalho de parto, não amamentam. E não sabem como é. E aí, ficam uma vida inteira tentando provar que não existe isso de intuição. Mais uma vez, eles têm a certeza, a razão. Mais uma vez, eles sabem mais do que nós.

            Sei, eu disse, mas não acha essa coisa da gestação não é uma ideia meio perigosa? Uma mãe que adota, por exemplo. Quase falei: uma mãe lésbica, por exemplo. Porque as mulheres que vivem uma vida heterossexual, nunca pensam de fato na vida sáfica. Dedos e línguas são o começo. De repente, você se apaixona e quer casar, ter filhos, muitos, envelhecer, ser uma avó sáfica, uma velhinha tricotando. Acontece com frequência. Uma casa num lugar tranquilo, talvez a gente se mude pro interior, uma casa com um quintal grande. Mas o que as pessoas vão pensar de vocês duas? Não sei, a gente dá um jeito. A gente sempre teve de dar um jeito.

 Você tem razão, ela disse, mas meu marido poderia ter respeitado minha preocupação, cogitar minhas razões, mesmo sem argumentos certeiros. Porque a história vai dizer que meu desconforto em relação a esse homem mais velho não foi em vão. Talvez não aconteça nada demais, me entende, nada muito grave além de casar e ter filhos. E sabe o pior, ela pediu a receita do escondidinho. Nunca se importou com o escondidinho antes, mas percebeu que para agradar um homem precisava ter uma receita de família na manga, para o homem ou para a sogra. E a sogra já é bem velha, escondidinho é perfeito, ela disse. Purê e frango desfiado, ela vai adorar. Sim, tentei disfarçar minha tristeza. Sim, escondidinho é perfeito. Eu esperei tanto para ela pedir a receita, e quando ouvi, veio com eco. Sabe? Mãe, me dá a receita do escondidinho-inho-inho. Ela distante, num galpão enorme, assombrado pelos fantasmas familiares. E a garota meio intransigente que eu criei quase sem querer, sem saber o que fazia, e que tinha me chocado porque namorava outra garota, porque se demitiu de um emprego CLT para seguir outra carreira, que fumava maconha com elegância – pinçando o cigarrinho –, foi parar lá, naquele oco. O galpão oco e assombrado. Um único altar no centro, exultando uma travessa de vidro de escondidinho – duas camadas, uma de frango, outra de purê –, nem tão gostoso assim. Gostosinho. Mas eu fingi alegria, porque esse pedido também marcou o começo da reconciliação. Então, eu tive que sorrir, perdoar a perturbação dela, assim como ela perdoou a minha. Uma camada em cima da outra.

            Ela bebeu um gole de cerveja, a espuma brilhou nos seus lábios, a língua a afagou. Então, contou o que aconteceu depois do aniversário de 50 anos. Ela e a sapata da caixa se deram tão bem que continuaram saindo. Num relacionamento aberto, ponderou, porque ela era uma típica malandra do samba. Perfeito para mim, imagina cair de novo na armadilha? Mas eu não podia continuar sem contar para a minha família. Na verdade, acho que era isso que eu ansiava mais. Depois da nossa primeira noite, aquela do samba, eu fui tomar café-da-manhã numa padaria, sozinha. Fiquei olhando o vidro da janela, o vidro mesmo, e não a rua, porque o que eu via ali era eu atravessando a soleira da minha casa, que é de vidro inteira, deixar cair minha bolsa no chão e declarar: “estou saindo com uma mulher. estou gostando de uma mulher. acabou, chega.” E essa fantasia se tornou um lugar seguro. Toda vez que eu revivia ela em delírio, sorria. Uma energia revigorante se espalhando pelo corpo. Kundaliní pura. Acho que demorei para contar também porque não queria estragar aquela cena tão perfeita, pela primeira vez eu mesmo ia ser a diretora da minha vida. Escolho a luz da manhã, a posição do meu marido e da minha filha, o cachorro com a orelha em pé, a música que ia tocar depois, meus próprios gestos, minha voz alta, decidida, firme. Minha roupa, vermelha, bem Almodóvar. Eu, mulher forte, intensa, bem Almodóvar. Depois, era zarpar para algum país que habla español, virar atriz ou musicista ou escritora ou prostituta de cabaré. Uma bela história de vida. Era isso – eu queria contar uma bela história de vida, de fazer chorar e rir, completa.

Mas qual a música que ia tocar na cena? Não deu tempo de decidir, meu marido desconfiou antes, bem antes de eu escolher a trilha sonora, forçou-me a uma conversa, “precisamos conversar/agora?/ agora, sim”, eu de pijama, ele achando que eu saía com outro homem, uma cena lamentável. Começou com ciúmes, uma cena ridícula, porque eu achava que, àquela altura da vida, ele nem sentia todo esse ciúmes. Uma vez mais, ele se adiantou e fez a cena que era do filme dele. Ele, protagonista corno – corno não, ferido, coitado, machucado, complexo. Eu, mulher ingrata, com um pijama velho – ela nem vale tudo isso, pensa o espectador. E, então, quando eu tive que admitir que era uma mulher, ele quase riu. Eu vi o sorriso entortando o bigode, um meio-sorriso irônico e sutil. E tudo acalmou. A cena virou comédia. E eu fiquei lá, ridícula, pijama velho, esperando a frase seguinte: é só uma fase. Mas eu não ia deixar barato ele desdenhar assim da minha história. Ele podia me achar ridícula de camisetão velho, furado, mas ela amava. Contei que ela me dizia: amo seus cabelos bagunçados de manhã. E não era nem mentira, porque ela era mesmo romântica. Com muitas. Mas ainda assim romântica, como uma música do Jorge Ben Jor. Era isso, acho que eu queria Jorge Ben Jor na minha cena de despedida. Eu, a cavaleira de São Jorge. Fui irritando ele, ele dizendo que tudo bem, podia esperar essa minha fase, fui falando das putarias que a gente fazia, igual naquele filme Closer, ele chegou perto e disse que tinha ficado duro, muito duro, estourando de tesão – há quanto tempo não ficava tão duro assim? Perguntou até se ela aceitava ménage. Mas eu não sou a bocuda lá, que agora eu esqueci o nome. Eu não queria excitar ele, eu queria magoar. E, de novo, ele tirou até isso de mim. Só que quem eu não queria magoar, se magoou. De quem eu esperava abraços e risos, veio o choro melodramático. Sua filha?, perguntei.

            Exatamente. Ela achou um absurdo. Acho que ela entendia, como eu quando foi com ela, que podia não ser só uma fase. Ela compreendia o que era andar na corda bamba, qualquer deslize, e a vontade de outra mulher nos braços. Ela me disse que eu era velha – velha para andar na corda bamba. Ela quem protegeu o pai da dor que ele mesmo não sentiu, antes da separação. Você vai cair, ela disse, e vai levar o pai junto lá para baixo. E ele é frágil, você sabe disso, uma das costelas quebradas já. Você vai destruir meu casamento. Vai chocar a minha sogra, velha, que usa dentadura e só come comida mole. E eu fiquei lá, vendo minha filha se transformar num monstro. Nenhuma piedade, nenhuma compaixão. Chumbo trocado dói, sim, doeu. Porque ela podia mudar a todo instante, mas eu não, eu tinha que ser o pilar, firme, o pilar daquele galpão oco, sem rosto, sem uma história para contar. Sem trilha sonora, só eco e metal rangendo. Eu tinha de ser para sempre a mãezinha. Junto do paizinho. O meu ato transformado num drama que eu não esperava, ter de lidar com a frustração da minha filha bissexual. Olhar no rosto dela e ver que ela não me via uma mulher, uma mulher completa. A redenção que eu esperava, a gente enfim se compreendendo, iguais, companheiras até, foi solapada pelo egoísmo dela. Quando ela disse que ia se juntar com o homem mais velho, talvez casar na praia, falando em relógio biológico, vontade de ter filhos, eu retruquei: então está tudo bem, Marina, o pilar agora é você. Eu fui, zarpei desse barco. Mas fui solitária, triste, doendo todas as juntas. Daí, eu decidi que precisava contar essa história, ter amigas lésbicas, quem sabe, uma amiga virar mais uma coisa. Porque a da caixa foi embora, como previsto. A coisa dura o que tem de durar.

            E eu fiquei olhando para ela, sem saber o que responder além do óbvio, e eu não queria ser uma personagem óbvia naquela cena. O pagode rolava solto no fundo, alguém trouxe outra cerveja, uma travessa de carne, o sangue da picanha pingando. Sapatas ecoando suas risadas exageradas. Ela desenrolou a canga colorida da cintura e foi dar um pulo na piscina. Um pulo gracioso, muito elegante. Algumas olharam para ela, pensando a melhor maneira de chegar naquela mulher tão segura de si, músculos torneados de pilates e yoga, praticante de tantra – praticante de tantra era o que tava escrito no seu perfil no aplicativo de relacionamentos. Eu, ali, meio deslocada, porque ela conseguiu dirigir sua própria cena e eu era apenas uma figurante. Nem nome eu tinha. Mas tudo bem, nada de roubar cenas. Minha participação se encerra aqui ou talvez a gente saia para tomar um café um dia, se eu tiver paciência para os papos de kundaliní. E ela dando braçadas na piscina, sorrindo contra o sol, e eu no mesmo lugar, juntando as pontas soltas, o não-dito, matutando a aura de mistério que a envolvia. Não se apaixonou pela mulher da caixa, buscava um motivo de emancipação. Emancipou-se dolorosamente, mas, sim, havia desejo, um desejo ainda subliminar, meio envergonhado de uma emancipação tardia, que o marido chamou de crise de meia-idade, depois que percebeu que o termo fase não ia surtir efeito. Mas faltava-lhe confessar, ainda, o crime. Era isso. Ela tinha a aura de fugitiva de um crime passional e justificável, óculos escuros, cabelos ao vento, precipício azul. Camadas transparecendo na travessa de vidro. Você ainda faz o escondidinho? Fazer eu faço, ela respondeu, mas que se foda a receita.

Mariana Vieira Gregorio publicou o livro de contos Noturna, pela Editora Patuá em 2021. Formada em audiovisual pela ECA-USP, trabalha com pós-produção de som, mas também já roteirizou e deu oficinas. Paulista, nasceu em Campinas e vive em São Paulo. Contos em revistas virtuais, outros textos e contato podem ser encontrados em http://www.marianavg.com.

https://www.facebook.com/mariana.vieira.gregorio

Instagram: @noturnanoturna

Sara Vinhal, Admirável mundo caduco

Era uma terça-feira como outra qualquer.

Nora chegou na empresa, deixou sua mochila em cima da cadeira, pegou a caneca no armário e se dirigiu à cozinha em busca de um cafezinho. Foi aí que notou a mesa vazia no cubículo ao lado. Tampouco era a única: todos que passavam davam uma olhadela de relance, sem, contudo, deixarem transparecer qualquer interesse na cena ou emitirem qualquer julgamento. A mesa desocupada parecia irradiar uma tensão (afônica, mas palpável) que afetava a pressão atmosférica ao seu redor e se fazia registrar por quem quer que passasse por lá.

Na cozinha, os colegas discutiam os resultados da partida do último domingo, sem muita convicção. O micro-ondas apitava. Nora não sabia se o café estava muito amargo. Nenhuma menção sobre a mesa vazia, embora o seu significado fosse evidente: Bruno havia sido desenraizado.

A prática se consolidou na terceira década do século XXI, embora ninguém conseguisse se recordar, ao certo, como ela havia sido gestada e parida. Tudo o que se sabia, naquele começo de século, é que algo precisava mudar – e, de fato, mudanças vieram a galope.

A coisa começou a desandar já na primeira década do século XXI, quando uma miríade de contextos distópicos se anunciava na esquina. Pensou em crise sanitária? Check! Colapso econômico? Check! Instabilidade política? Check! E a ordem social, parte hipossuficiente dessa equação, engatinhava (lenta, mas decididamente) rumo a um K.O, enquanto levava golpes certeiros em seus órgãos vitais.

O primeiro a jogar a toalha foi o pulmão, com a chegada de um vírus respiratório que abarrotou os necrotérios, desmantelou os governos e infiltrou-se de tal forma no esqueleto da sociedade que somente alguns gatos pingados ousavam considerar o que ainda estava por vir.

Em pouco tempo, o sem-número de clamores sociais que tendem a competir por visibilidade em cenários de incerteza acabou confluindo, sem que ninguém se desse conta, para um apelo generalizado por previsibilidade, pura e simples (sem considerar, todavia, qual seria a contraprestação por essa commodity) e foi nesse momento que a cabeça resolveu acompanhar o pulmão e se retirou da batalha.

Em seguida, foi o estômago que levou um golpe fatal, com o colapso da economia globalizada e a crise na distribuição de alimentos, que acabou por substituir as organizações políticas que ainda restavam por sistemas tecnocratas geridos por conglomerados econômicos (os e-Govs), com a promessa de soluções desburocratizadas para as mazelas socias (dentre as quais, o dilema da previsibilidade).

Então vieram as FUSIs (“floating unities for social improvement”) e o coraçãosucumbiu de vez. Valendo-se de algoritmos desenvolvidos pelas grandes empresas de tecnologia e aprimorados ao longo de décadas, os e-Govs se tornaram capazes de antever, com uma precisão invejável, os comportamentos de todos aqueles que, algum dia, se valeram de aplicativos ou plataformas sociais para o seu entretenimento (contribuindo, dessa forma, para a construção do maior banco de dados comportamentais da história), de modo que, com base nos perfis traçados a partir desses algoritmos, os e-Govs criaram uma ferramenta de controle social que poderia oferecer previsibilidade – e, com ela (supostamente) as demais benfeitorias prometidas.

A perspectiva era promissora: como todo comportamento poderia ser previsto, a humanidade só seria surpreendida por ocorrências naturais, amputando-se, do conjunto das agruras da existência, ao menos aquelas de origem humana. “Menos uma coisa com o que se preocupar”, pensou-se.

Quando as FUSIs foram anunciadas, pouco se questionou acerca da sua dinâmica. O pitch, trazido pelos representantes dos e-Govs, era de que se tratavam de “unidades de melhoramento social” que flutuariam por todo o espaço aéreo e que teriam, como propósito, isolar aqueles cujo comportamento contrariasse as estimativas dos algoritmos – assegurando, assim, a imperturbabilidade da nova ordem social.

Em questão de meses, as FUSIs se tornaram onipresentes em todo o firmamento. Os dissidentes logo começaram a desaparecer (o que acabou sendo denominado, no linguajar popular, de “desenraizar”), sendo, todos os traços de sua existência prévia, apagados dos bancos de dados coletivos.

Quando a prática se tornou recorrente, atingindo entes queridos dos autointitulados “cidadãos de bem”, a bonança prometida cedeu lugar à apreensão geral de que qualquer mudança de gosto, temperamento ou hábito pudesse, de alguma forma, fugir às previsões dos algoritmos e ser interpretada como uma transgressão.

Passou a ser recorrente, nos divãs de psicólogos, a descrição de pesadelos em que os pacientes se imaginavam sendo sugados de suas camas diretamente para as FUSIs, no meio da noite, para nunca mais voltarem. Os filmes de terror reproduziam, com uma preferência alarmante, histórias de aliens e de abduções. Contemplar o céu deixou de ser uma atividade recreativa e se tornou uma fonte de tensão permanente.

Veio à tona, ninguém sabe de onde, a lenda urbana de que caso alguém olhasse para um lago (ou represa, ou piscina, que seja) em que uma FUSI estivesse refletida e repetisse três vezes uma informação inusitada sobre si, que o sujeito seria imediatamente sugado para os céus, sem ter tempo de pestanejar.

As pessoas passaram a temer, então, um novo corte de cabelo, um jargão inaudito ou um novo molho para salada. Experimentar se tornou um tabu. Uma obra inédita não era mais produzida, a não ser que repetisse, ipsis litteris, as fórmulas já conhecidas e repisadas cem vezes antes. Coletâneas literárias já consagradas passaram a ser reimpressas com voracidade e remakes foram produzidos um atrás do outro. As campanhas publicitárias se tornaram obsoletas, já que nenhum produto novo era incorporado às coleções. Qualquer inovação era acompanhada por um notável, ainda que justificado, mal-estar.  

Nos cantos dos corredores, dizia-se que o Seu Arnaldo havia sido desenraizado por ter colocado azeitona em sua marmita, embora não tivesse demonstrado interesse pelo petisco antes. Que a Dona Elaine tinha inventado de fazer a macarronada de domingo com outra receita, depois de vinte anos com a mesma técnica, e que isso foi a sua perdição. Que a Mirna, roqueira de carteirinha, havia ouvido pagode (e cantado junto!) no carnaval e essa foi a última vez em que havia sido vista. Os relatos podiam variar no nome, sobrenome e CEP de seu protagonista, mas o seu desfecho era sempre o mesmo.

Não se sabia como era a vida dos desenraizados no interior das FUSIs. Todo o sistema que gerenciava as unidades flutuantes era automatizado e controlado por uma inteligência artificial centralizada, sem qualquer interferência humana. Guardas não eram necessários, já que, a três mil metros de altura (no mínimo), qualquer tentativa de fuga seria infrutífera – e invariavelmente letal.

Quando se parava para pensar, sequer se sabia se os desenraizados poderiam, de fato, planejar uma fuga, se estavam acordados ou em um sono induzido, se ficavam presos o tempo todo, se se comunicavam entre si, se tinham o que comer, se só respiravam ar rarefeito. Não se sabia, nem mesmo, se eles estavam realmente nas FUSIs ou se já haviam sido convertidos em fertilizante de bromélias. Tudo o que se sabia era que ninguém voltava de lá e que nenhuma pessoinha era vista caindo do céu. Nunca.

Para aqueles que permaneciam no chão, contudo, o cenário não era dos mais animadores. A possibilidade (sempre iminente) de ser sugado por uma FUSI trazia consigo a necessidade de um domínio sobre si que beirava o panóptico, abarcando todos os aspectos da vida (cada gesto, cada manifestação, cada escolha) e que asfixiava, em seu caminho, qualquer vir-a-ser que pudesse desabrochar nas frestas da existência.

Era necessário, ainda, aprender a conviver com o ocasional desaparecimento de alguém mais próximo. A Dona Firmina, por exemplo, levava todos os dias até o topo do mirante uma cesta com os biscoitos de nata que seu filho gostava, na esperança de que algum ‘mecanismo’ nas unidades flutuantes entendesse (de alguma forma) o seu gesto, sugasse os quitutes e os entregasse intactos. Os joelhos podiam até reclamar da iniciativa, mas o coração, ao menos, se aquietava um pouco.

O Seu Geraldo, por sua vez, com seus setenta e oito anos, resolveu se arriscar numa ascensão suicida ao K2 (em torno do qual flutuavam várias FUSIs), como uma tentativa de reencontrar a sua esposa desenraizada. Pegou as economias do casal, se despediu das plantas do terreiro e saiu pelo portão lateral uma última vez (alguns acreditavam que ele havia sido desenraizado, no final das contas).

Outras pessoas, menos propensas ao risco, mas igualmente enlutadas, optavam por simplesmente entregar os pontos, entrando em um estado no qual se limitavam a olhar desesperançosos para o céu pelo resto de seus dias, enquanto comiam gelatina no sanatório mais próximo.

Não era por menos que pessoa alguma se atrevesse a mencionar o desenraizamento do Bruno. Apesar do comedimento auto infligido, o anseio de rastrear o motivo do seu sumiço inundava a todos como um tsunami, já que qualquer um poderia, muito bem, ser o próximo. Será que ele assistiu ao jogo do time rival? Será que inverteu o lado que dormia na cama? Será que trocou o sabor do shake? Cada hipótese era absorvida, remoída e regurgitada uma dezena de vezes – e nunca descartada em definitivo.

Não que a base de dados comportamentais dos algoritmos fosse uma incógnita – pelo menos não no sentido estrito da palavra. Era possível solicitar, a qualquer momento, o envio dos dados que integravam a base particular de um indivíduo, por meio de um simples aplicativo desenvolvido para esse fim.

Os dados, todavia, eram de tal forma volumosos e interconectados que interpretá-los era o verdadeiro calcanhar de Aquiles. Em média, os dados poderiam ocupar facilmente, caso impressos em folhas A4, um cômodo de cinquenta metros quadrados por pessoa, o que impossibilitava, na prática, o seu entendimento. Junte-se a isso o fato de que cada nova solicitação era acompanhada por ‘termos de aceite’ progressivamente mais rebuscados e não é de se surpreender que até mesmo o mais resiliente se mostrasse desencorajado nesse empreendimento.

O jeito era ir levando as coisas, ainda que tropeçando, vez ou outra, na barra das calças.

Em uma realidade em que todos os prognósticos eram conhecidos, uma certeza se destacava: nada de novo apontaria no horizonte (pelo menos não tão cedo).

Nora terminou o café, lavou o seu caneco e se sentou na cadeira para começar o expediente. Respirou com intento enquanto amarrava o cabelo de uma forma ritualística e repetia para si mesma que se tratava de uma terça-feira como outra qualquer.

Sara Vinhal cresceu no interior (beeeem interior) de Minas Gerais e reside atualmente em Belo Horizonte, ainda cercada por verde. Advogada por formação, encontra, na literatura, alento contra a aridez do cotidiano.

Facebook: https://web.facebook.com/sara.cardoso.5851

Insta: @savi.belorzonti

Isabel Furini, Ao luar

o corvo crocita no campo de milho

enquanto a Lua brinca

com o inquieto mar

o Tempo (sempre poderoso)

chicoteia

os relógios

– o som do chicote reverbera

na bussola de madeira

pendurada na branca parede escancarada

da casa de madeira

enquanto prepara um chá quente de canela

o filósofo observa a bússola

e pensa na transitoriedade

da existência humana

Isabel Furini nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1949. Radicou-se em Curitiba, PR,  Brasil. Começou a escrever poemas quando era criança.  Publicou 7 livros de poemas. Idealizou o Projeto Poetizar o Mundo; recebeu Comenda Ordem de Figueiró (RJ);   Embaixadora da Palavra pela Fundação César E. Serrano (Espanha, 2017); Realizou recitais poéticos no Brasil e também na Biblioteca Pública de Burlingame, Califórnia, USA (2018). Seus poemas foram premiados no Brasil, Espanha e Portugal.

https://www.facebook.com/isabel.furini/

Árion Lucas, Lanterna

que susto!

um macaco

esfomeado

descendo

subindo o

cipó sozinho

no meio da

encruzilhada

a galinha

olhos vermelhos

debaixo

da bananeira

choca os ovos

branca nas penas

nesse frio

um gato preto

passa correndo

farfalhando terra

três cães atrás

o dono em guerra

vem resgatar

vestes escondidas

pra ninguém roubar

diz pus óleo

esquentei

coisa e tal

ia jantar

veio a chuva

pum!

caiu assim

do meu lado

mas saímo ileso

foi deus

depois cortei

isso fui eu

fizemo fogueira

mas hoje durmo

na usina

não tem jeito

muita cobra

recuperando

cada toca

sabe o que faço

se uma dessas aparecer?

se me atacar

eu mato

senão vou assim

se não tem? rapaz

mas tem muita

mais até

que as bostas

as garrafas

e o pano

amarelo

dobrado no

galho

com cupins

do cimento

recém-restaurado

preto cremoso

sob o pneu do

pictograma

escorregadio

na placa torta

ao ônibus da seta

as cigarras

entrecortadas

por carros

na lanterna

do imperador

doada ao alto

pelo feudo oriental

em 1957

sob a palmeira

que corre o risco

de apagar

Árion Lucas é um escritor carioca nascido em 1992. Vende zines independentes no bairro Alto da Boa Vista. Publicou os romances Pequenos Sonhos do Tempo (Juagatirica, 2019) e Todos os Fins (Urutau, 2019), os livros de poesia Silêncio a Lapsos (Urutau, 2019) e Casa Praça (Trevo, 2021), a coletânea de contos Espelho de Nuvens Sãs (Amazon KDP, 2019), além de reunir crônicas em arionlucas.medium.com

Instagram: @_arionlucas