Belle Époque

Te digo, Pajé, que esta cidade será o maior museu da peste do século XXI. Um depósito colossal de lembranças em cada zona, bairro, casa: imagine o potencial turístico e econômico dessa empreitada! Nossa Belle Époque de leitos de UTI e valas comuns!


Vamos promover pacotes turísticos inspirados nas vidas (ou mortes) de gente simples e trabalhadora. “Nesta casa morreu dona Francisca, uma guerreira que criou seis filhos, oito netos, e venceu uma longa batalha contra o câncer de mama para sucumbir ao vírus”. Que tal? Claro, não precisa reproduzir literalmente os fatos, basta cativar a atenção do turista, incluir algum detalhe pitoresco no relato para fazer valer o ingresso. Os objetos que pertenceram aos falecidos também serão exibidos junto com as fotografias do ente querido e sua família, que tal?


Sente a inspiração: “aqui faleceu o dr. Demóstenes, um dos mais célebres representantes da magistratura local e defensor dos direitos humanos. Sua filha única enlouqueceu após a morte e, certa noite, saiu de casa em trajes íntimos profetizando a chegada dos exércitos do Senhor. Ela morreu jovem e se tornou a padroeira das crianças órfãs e das solteironas. Eis um exemplo de que a doença não escolhia cor, credo ou status social”. Um relato comovente com pinceladas de esoterismo, a fórmula do sucesso, que tal?


Te digo, Pajé: seremos a vanguarda do turismo de luto. Ao final dos passeios, vamos distribuir chaveiros em formato de cilindro de oxigênio e balas com sabor de benfezina, que tal? Certo, Pajé, tô ligado que o maldito remédio não tem gosto de porra nenhuma, é apenas uma jogada para estimular a memória afetiva dos clientes. Talvez você pense que estou indo longe demais, que devo respeito à dor e ao luto das famílias…mas olha que curioso: na Alemanha os turistas são incentivados a visitar os locais onde exterminaram os judeuzinhos. Até mesmo os carecas têm liberdade para posar na frente dos campos de concentração com os braços estendidos, Viva a vitória!, A guerra é a higiene do mundo!, coisa e tal. País desenvolvido é outro exemplo.


E, além disso, eu mesmo quase fui vítima daquele micróbio maldito. Passei duas semanas com a porra de uma caixa de plástico enfiada na cabeça, diziam que era a tecnologia mais avançada para o tratamento, agora imagina a pior…puta que pariu, só podia ser piada! Eu ali, deitado sem conseguir falar, naquela sala abarrotada de gente desconhecida: pretos, pobres, amarelos, putas, ricos, evangélicos, macumbeiros e o caralho a quatro…médicos e enfermeiras correndo em todas as direções, sem pausa nem descanso, com aquela expressão de tragédia iminente no rosto e uma má notícia na ponta da língua. Teu pai não resistiu. Tua sogra teve de ser entubada. Mamãe está em coma. Eu ouvia essas notícias e não acreditava na dimensão daquela catástrofe, não conseguia reagir: é muita desgraça para uma pessoa aguentar. Imaginei que Jesus testava a minha fé, a minha resiliência, o mesmo desafio enfrentado pelos personagens das Escrituras. Na minha cabeça, aqueles moribundos não eram pessoas de carne e osso, mas anjos. Não tô falando daquelas entidades enviadas para te proteger, e sim te desafiar. Tipo uma versão bondosa da figura de Satanás na montanha, entende?


Te digo uma coisa, Pajé: foi uma experiência tenebrosa, mas aceita o convite quem quiser. Uma dose de polêmica é fundamental para a garantir a sobrevivência dos negócios. Os maiores líderes nos ensinaram isso: Hitler, Trump, aquele ditador malucão lá do Paraguai que estuprava e matava crianças, celebrado como um herói pelo nosso presidente, o cara permaneceu décadas no poder, veja como funciona! Enfim, só para citar alguns casos. Meu avô Benedito dizia que a vergonha é o prelúdio do fracasso. Isto é um fato. Vamos em frente.


Talvez você já saiba, Pajé, mas assim que o povo perceber que os vizinhos, amigos e familiares estão faturando alto com o negócio, vão desistir de manter a pose de gente civilizada. Tô contando alguma novidade? Você deve saber melhor do que eu. A história do teu povo comprova o que tô falando. Simples assim.


Te digo, Pajé: vamos salvar nossas famílias da penúria. E quem sabe faturar um cargo de deputado ou vereador, o que vier primeiro é lucro. Nosso eleitorado vai apontar para a gente na televisão, na rua, no supermercado, e dizer: aquela dupla foi acusada de oportunismo, de faturar alto com a tragédia de nosso povo, mas o fato é que a verdade jamais será esquecida. E seremos os guardiões dessa história. Homens que colocaram a própria cabeça a prêmio e não fugiram da luta. Seremos o exemplo de heroísmo das futuras gerações. E que falta fazem os heróis neste país!


Então, Pajé, gostaria de te apresentar uma prévia do roteiro de visitas. O cemitério improvisado que ficou famoso por causa daquelas fotos publicadas nos jornais dos states, onde fica mesmo? Claro, longe pra caralho, mas a intenção é tirar o foco das atrações que todo mundo já conhece, o povo está cansado de ver teatro, comer camarão boiando em água suja e dançar boi-bumbá, essas leseiras todas. Vamos injetar um pouco de realismo nessas vidas sem graça. Aí a gente divide os lucros dos ingressos com os sobreviventes, que tal? Uma proposta honesta, hein? Claro, não podemos deixar nossa maravilhosa culinária regional de lado. Vamos oferecer as comidas favoritas de cada falecido, preparadas e servidas durante as visitas: peixe assado à moda de Fulano. Carne guisada com tempero da dona Sicrana. Basta usar a criatividade.


Então, Pajé, o que você me diz? As cartas estão na mesa. Te expliquei o plano em detalhes, cabe a você a decisão de fechar essa parceria. Se tiver alguma dúvida, basta consultar o contrato que te apresentei. Sei, no entanto, que você é um homem de poucas palavras e muita atitude. Pode assinar logo, se preferir, e vamos comemorar com uns goles de cachaça envelhecida, do jeito que você gosta. É por minha conta.

DANIEL AMORIM nasceu em Manaus, Amazonas, em 1983. Escritor e jornalista, edita a revista Torquato. Em 2020 publicou seu primeiro livro de narrativas breves, Zona de sombra, pela editora Penalux. O livro venceu o Prêmio Literário Cidade de Manaus em 2018 na categoria Contos.

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