Cuscuz num é pra cumê?

Na manhã de segunda-feira, o homem de olhos baixos, pele queimada pelo sol e corpo magro, saiu, desdobrando o bigode, pra mais um dia de trabalho. Cícero – mais conhecido como Cuscuz – pegava em bloco e cimento pra casa dos outros construir.

 O quarto filho de Dona Ciça – assim como outros- veio com nome registrado, mas sem pai para mostrar o que era ser homem macho. Aprendeu sozinho. Sozinho não, com a mãe Ciça que sempre ensinara o menino a pegar enxada pra trabalhar.

O sujeito calado, no trabalho com muito movimento, ia colocando tijolo em cima de tijolo como quem grudava vida feita de fatias. De longe, avistava as paisagens bonitas de terra seca no sertão. Era criança, mas já entendia que vida de gente sem nome era cheia de sofrimento.

O primeiro macho depois de 3 filhos pegou a responsabilidade de homem de casa pra ele. Sem saber o que era isso, assim como as irmãs, foi trabalhar-de-tudo.

Trabalho. Trabalho. E mais trabalho.

Terra seca e firmeza nos blocos que iam construindo uma casa. Ali, na cidade de Sanharó, pouco se tinha engenheiro e arquiteto. Quem montava casa e fazia decoração era pedreiro e servente de pedreiro.

Quando menino, chegava em casa e tratava logo de colocar o pratão de cuscuz que a mãe fazia. E não é que o garoto foi apelidado de Cuscuz? Comia. Saciava-se com aquilo que tinha na mesa. A farinha de milho, às vezes a galinha matada no terreno.

Quando cresceu, o pobre homem conheceu pitu. Pitu não era gente não, mas era companheira de quem labutava sem parar. Na aridez, a bebida pra molhar bico de quem já viveu muito e de vida queria mudar.

Danou-se pra São Paulo. Ninguém na cidade entendia o motivo do homem se chamar Cuscuz. “Mas cuscuz num é pra cumê?”. “É pra cumê, sim senhô”. Não passou muito tempo para sair no meio daquela gente que nem de apelido entendia e que só de encrenca vivia.

Voltou pros braços da Dona Ciça, no sertão. “Quer sertão maior que aquela cidade grande cheia de gente?”, pensava com ele mesmo.

Da vida de Cuscuz, a solidão de não ter uma mulher. A família que fincara em seu corpo era família de Dona Ciça. Construía casa sem construir a própria vida.

De bruços na cama sonhou gente de quem pertencia ao trabalho duro. Devaneava pelos caminhos de Jesus. Encontrava o próprio pai. Acordou assustado, fechou os olhos pra ver se de comida farta o céu era feito e se seu pai – que fugiu pra longe – estava lá. Mas a imagem lhe escapou. Nunca mais havia sonhado sonho bom. Sonhou foi sonho de quem bebe pitu e teve que trabalhar no dia seguinte.

**

Cuscuz fez-se no amontoado de cimento e bloco. Era o destino sem pai. Era o destino de quem do abandono tinha sido parido. No meio daquela fartura, desentravava o passado. Dia e noite evacuavam pela casa em construção a sensação de que nasceu sem pai, mas com mãe forte demais. Sentia-se feliz, vez ou outra triste. Tinha a latinha de pitu pra acompanhar a contemplação de tijolo em cima de tijolo, era vista bonita pra quem de pedreiro havia se formado.

Com o pitu começava a sentir-se livre. Livre pra andar. Entorpecia a dor com a bebida. Agarrava-se aos delírios que ela oferecia, para viver o tempo de quem só tinha tempo pra trabalhar.

Mesmo com a fome cantarolando pela barriga, mesmo com a vida sem pai, mesmo com o corpo sendo saciado apenas por uma lata de água durante o banho, mesmo com a dor de onde nascera, Cuscuz levava era alegria pra povo que tinha pouco a ser mostrado.

Apelidava as sobrinhas. Fazia graça com o próprio sofrimento. Do desespero do trabalho, do corpo magro, das mãos com rachaduras, a felicidade de quem pertencia a família de parto forte de mulher.

***

Foi com essa alegria e felicidade que Cuscuz se arranjou com uma mulher. O jeito brando, misturado ao sentimento doloroso de abandono, deu-se Maria Clara. Mais uma menina pra família. Mais uma neta pra Dona Ciça oferecer o corpo e o acolhimento de vó.

Maria Clara tocou as águas serenas escondidas dentro de Cuscuz, celebrara ali, no cantinho, a felicidade que era ser pai. Pai de menina. Menina que tinha pai. O pai que Cuscuz não teve, mas que queria ser.

Da filha, a felicidade do colo paterno. Cuscuz era Cuscuz que terra atrevida não comia. Era terra que não devorava. Cuscuz era de Maria Clara, Maria Clara era de Cuscuz. O homem fincou-se tanto na menina que soltura nenhuma era capaz de desgrudar.

Do pitu, ainda fazia sua companheira. Dos tijolos ainda da rachadura se vivia.  Da grota funda de quem foi maltratado pela vida, o preenchimento da paternidade.

Cuscuz era pai. Cuscuz sempre foi o pai das 3 irmãs que nasceram do sangue de homem sem-nome que do abandono fincara.

Mas era no fim da tarde, quando chegava em casa e agarrava-se a menina, que se deu conta que dos tijolos construídos sentia o coração de menina com mãos pequenas e luzes no olhar. Sim, Cuscuz, era sua filha.

Trabalhou ainda mais pela menina. Trabalhou até mudar de canto e buscar serviço que valia muito mais que o dinheiro que ganhara.

A vida do quarto filho de Dona Ciça foi trabalhar, erguer casa, beber pitu e pertencer à criança que amara desde o dia que nasceu.

ANDRIELE MORAES, 25 anos, é uma pernambucana residente em São Paulo, jornalista e uma das criadoras do grupo de leitura e podcast “Clube do livro feminista”.

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