Vida que segue

Adriano B. Espíndola Santos

Gustavo, quando me encontrou na rua, semana passada, parou com cara de espanto, como se tivesse encontrado um fantasma; quedou paralisado, com as duas mãos nas bochechas, e perguntou, excitado, se eu sabia do paradeiro da “mulher mais linda da escola”. Uma puta dor de amor não correspondido. Balancei a cabeça em sinal de negação. Não havia muito o que falar, apesar da insistência do jovem senhor, ou do senhor que queria se fantasiar de jovem. Não conseguia me concentrar em suas palavras, irritantes ruídos surdos, com um componente importante: o calor de torrar o juízo, às 12h30min; observava, abismada, o projeto de animador ou de monstro de casa de terror de algum parque vagabundo. Ele vestia uma camisa estampada, com flores na cor azul escuro e fundo laranja; um calção normal, bege, que adensava o contraste; óculos de sol; os dois braços fechados com tatuagens; e um chiado forçado, característico de quem passa apenas voando sobre o Rio de Janeiro e volta à terra natal acreditando que isso lhe confere alguma relevância – babaca, pensei. Pelo contrário, eu estava enjoada, literalmente com vontade de vomitar na cara dele. Segurei a tensão para não transparecer a mesma menina do colégio, esquisita, fechada e antipática. Só Veridiana me aguentava. E, lógico, Gustavo me abordou por essa única razão. Nunca trocamos muitas palavras, porque ele sempre estava ocupado em “azarar” ou com brigas. Não mudou nada; pelo visto, piorou. Quando vinha a mim, era para pedir dica ou um “furo” que o permitisse penetrar aquela alma blindada. Veridiana era o meu exemplo de perfeição. Mesmo sendo linda, extrovertida e aclamada pelos professores, nunca me deixou de lado. Por um tempo, suspeitei que a bondade e a amizade dela pudessem ter um certo interesse velado; mas não sabia em relação a quê; eu não tinha nada além para oferecer. Houve uma época em que rejeitei a sua companhia e, por isso, a via triste pelos cantos. Ledo engano. Fato: ela tinha um carinho por mim, indizível, algo sobrenatural; como eu por ela. Sabendo que não tinha irmãos, ficou fácil de entender que ela queria alguém próximo para se aninhar, para contar as suas frustrações, os seus segredos, dores e dilemas. Percebi mais esse apego com uma simples constatação: havíamos estudado juntas desde a alfabetização. Ou seja, fomos as únicas em nossa sala a atravessarmos a jornada do ensino básico. Da alfabetização ao ensino médio unidas, irmanadas: uma vida inteira. Não houve festas por parte de nossas famílias; “cumpríamos a nossa obrigação”. Nada de comemoração também no colégio, porque, naquele ano, um menino da quinta série estava em estado grave no hospital após uma briga com outro aluno, dentro da escola, o qual portava um canivete escondido no tênis. A partir daí, tudo mudou. No recesso, me sentindo só, sem ter com quem conversar, ligava insistentemente para a casa de Veridiana; o telefone dava ocupado ou desligado. Depois de duas semanas, vendo o período breve de descanso se esvair, pensando que logo mais teria de prestar o vestibular, me vi aflita e saí sem avisar a ninguém. O meu objetivo era encontrar Veridiana e saber o que estava acontecendo. A questão era que Veridiana morava a oito quilômetros da minha casa; a escola ficava no meio do percurso. Precisei pegar dois ônibus, na ida, porque não havia linha direta. Encontrei a casa, quase não a reconhecia: Rua das Nações, nº 21, bairro Alcântara Formoso. Bati bastante na porta, até a minha mão arrebentar, e caí em prantos na soleira. Um monte de besteira passou por minha cabeça: que teriam se mudado por conta da tragédia do colégio; que não queriam a nossa amizade; que voltaram à terra dos pais, Paraíba. Não era possível, não podia acreditar. Ao me ver naquele estado, uma senhora de nome Armênia me perguntou o que estava se passando, se eu precisava de ajuda. A princípio, recusei, mas a senhorinha bondosa tornou a perguntar e disse que faria o que fosse preciso para me ajudar; que eu parecia muito com a sua neta, que morava no Canadá, de quem tanto sentia saudade. Enfim, revelei que estava desesperada porque não tinha mais contato com a minha única amiga, a Veridiana. A senhora Armênia levou a mão direita a cabeça, coçou, como se pensasse “digo ou não digo?”; e, depois de intermináveis dois minutos, despejou o que compreendi como o meu fim: Veridiana e família haviam se mudado às pressas e não compartilharam o novo endereço. Mas como assim? De quem estavam fugindo? De mim? Veridiana estava disposta a ser a minha eterna amiga; fazíamos planos; pensávamos até em morar juntas, num intercâmbio nos Estados Unidos ou na Irlanda. Veridiana acabou com os meus sonhos. Voltei para casa, tarde da noite, chutando pedras na rua. Dona Armênia queria que eu dormisse em sua casa; que eu ligasse para a minha família avisando que eu estava bem, na casa de uma amiga – o que não deixava de ser verdade, já que nos tornamos amigas instantaneamente. “Não”, eu disse com firmeza; tinha medo da mão do meu pai, que às quartas e sextas voltava bêbado do trabalho – o fatídico dia calhou de ser uma sexta-feira. Por vários meses mantive contato com a senhora Armênia, que prometeu fazer de tudo para encontrar o bendito endereço. Perdemos as esperanças. Nada. Nem sinal de fumaça. Veridiana sumiu mesmo como fumaça, abandonando no meu peito o vazio. Passei três anos para me restabelecer do baque, com a ajuda de bastante terapia e remédios. Descobri que Veridiana, mais que uma amiga, era a minha paixão juvenil: meu primeiro amor. Então, nada mais justo do que mandar o Gustavo se foder. Foi assim que me despedi dele. Vida que segue.


Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza (CE). Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos” (Desconcertos Editora) e, em 2020, os livros de contos “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou” (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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