A língua das meninas

Daniela Rezende

emagreço. encolho. emagreço. encolho para dentro. me recolho. vou me curvando para dentro de mim mesma: os seios começando a aparecer na adolescência e eu me curvando, curvando. evitando os olhares. a primeira vez em que menstruei eu tinha onze anos de idade. minha mãe contou para todas as minhas tias; então, em um fim de tarde várias delas apareceram me dando parabéns, me dando tapinhas no ombro. ora, já é uma mocinha agora. agora tem que tomar cuidado, né. e eu não sabia o que elas queriam dizer; eu não sabia porque estava recebendo aqueles parabéns. minha mãe nunca me explicou nada. tudo o que eu sei – tudo o que eu soube – foi sendo construído aos poucos, a partir de várias fontes. a televisão brasileira nas tardes de domingo. as novelas no horário nobre. os boatos na escola: estávamos na quarta série e as meninas conversavam aos cochichos sobre absorventes. modess. tampões. minha mãe nunca me explicou nada. minhas tias nunca me explicaram nada. elas só vieram e me deram aqueles tapinhas nas costas: já é uma mocinha. e o sangue jorrando; e o sangue jorrando. o sangue me ensinou muito. o sangue jorrando, o corpo crescendo e eu tentando encolher. me diminuindo por fora para compensar o crescimento descontrolado dentro. aquelas duas colam velcro escondidas no banheiro, sussurravam as meninas da escola. os boatos sobre as duas colegas de sala. e eu ficava imaginando o que seria colar velcro. e eu ficava tentando entender o que era uma aranha. eu não entendia a língua das meninas. garotas menstruando; garotas colando velcro; garotas murmurando pelos corredores com absorventes nos bolsos. essas eram as coisas que as garotas faziam. e eu me encolhendo e emagrecendo para dentro. me recolhendo até a hipoderme. diminuindo até os músculos; até alcançar os órgãos internos. meus órgãos internos todos jorrando sangue. e eu me encolhendo até o sangue, que tem cheiro de ferro; até os ossos. até os ossos. me revirando para dentro de mim mesma, porque não queria crescer. aos onze anos eu não queria crescer porque já percebia que aquilo era um negócio perigoso. os adultos que davam tapinhas em nossas costas. eu não entendia nada dos absorventes e das colegas que se amavam nas horas vagas da escola, mas já sabia como viver é risco e perigo. por isso tentava virar do avesso. por isso tentava tocar no sangue, nos ossos. por tudo isso, eu buscava a minha coragem.


DANIELA REZENDE é escritora e artista educadora. Graduada em História da Arte e Mestra em Letras, nasceu e mora em São Paulo, SP. Publicou textos em revistas virtuais como RevistaRia, Subversa, Desvario, Mallarmargens e Toró, e nas zines Despacho e Felisberta. Teve um videopoema selecionado no 4° Concurso de Videopoesia da Desvairada – Feira de Poesia de São Paulo (2020). Atualmente, colabora no portal Fazia Poesia, no Medium, e participa do CLIPE Poesia, curso oferecido pela Casa das Rosas. Instagram: @rezende.danielaa

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